O LUGAR DE PAULO FREIRE NA TEORIA DAS LEITURAS

Em 1986, Paulo Freire recebeu o prêmio Educação Pela Paz, da UNESCO. Ele tem 29 títulos de Doutor Honoris Causa concedidos por universidades espalhadas pela América e Europa. Um levantamento feito em 2016 por Elliot Green, professor da London School of economics, junto ao Google Scholar, constatou o educador brasileiro como o terceiro pensador mais citado do mundo nas áreas de humanas das universidades. Freire é o intelectual brasileiro mais lido do mundo, destaca a 53ª Ocupação Itaú Cultural, que homenageia o educador neste ano do centenário de seu nascimento.

Tamanha afirmação da importância dele como filósofo-educador não o esgota. Há ainda muito a querer da obra de Freire, por duas boas razões que se complementam. Uma que o pensamento freireano é muito sugestivo, gerado na intenção de transformar a educação, a democracia, a cultura e a sociedade. Outra: essas características inspiram e chamam complementaridade, comparações e aplicação em pesquisas e práxis diversas.

Aqui no Blog tenho proposto iluminações freireanas ao contexto cultural, tanto no pensar a cultura como no criar ações e políticas culturais. Adoto um modo de editar que não é novo, nem tampouco muito cultivado: a crítica cultural. Nesse modo, tem um tanto de jornalismo e um tanto de teorização e analogia, porque se localiza importâncias e possiblidades. Esse artigo dedico ao lugar de Paulo Freire numa teoria e numa prática das leituras.

O HORIZONTE CULTURAL DAS LEITURAS DE MUNDO

Em sua práxis e pensamento educativos, Paulo Freire colocou a educação a serviço de uma democracia social, origem da Pedagogia do Oprimido e de noções como a assunção cultural das classes trabalhadores, a partir dos conhecimentos de que fossem se apropriando. É também nesse compromisso que Freire fala de outra de suas noções geradoras fundamentais, a leitura de mundo.

Sempre que tenho discutido a questão da alfabetização, tenho afirmado que é impossível pensar-se na leitura da palavra sem reconhecer que ela é precedida da leitura do mundo. Daí que a alfabetização, enquanto aprendizado da leitura escrita, da palavra, implique a releitura do mundo. Por isso é preciso primeiro constatar essa coisa óbvia: que o bicho gente, muito antes de desenhar e fazer a palavra escrita, falou, disse a palavra e, muito antes de escrever, “leu” o mundo dele, “leu” a realidade dele.

Com esse raciocínio, Paulo Freire inicia o diálogo com o físico Márcio D’Olne Campos, especializado em relações educativas entre sociedades e natureza. Está registrado no livro “Pedagogias dos sonhos possíveis” com o título “Alfabetização: leitura do mundo, leitura da palavra”. A alfabetização deve ter por base que a palavra falada vem antes da palavra escrita e significa leitura de mundo antes do domínio da escrita. E na busca de conhecimento deve-se retomar esse caminho sempre, propõe Paulo Freire, como um remeter do texto ao contextual, uma leitura cultural, um saber-o-mundo que se amplia.

Paulo Freire sempre insistiu na relação dialógica entre educador e educando. Uma das bases desse dialogismo é o educador inteirar-se e respeitar os conhecimentos que as crianças trazem para a escola, que são vivências, valores, modos de ver e recortes sociais: “É uma leitura que ela aprende a fazer, no convívio de sua casa, no convívio de sua vizinhança, de seu bairro, de sua cidade, com a marca forte do corte de sua classe social. Com essa leitura ela chega à escola que, quase sempre, despreza seu saber anterior. Nessa leitura ela traz, obviamente a sua linguagem, ela traz a sua sintaxe, ela traz sua semântica. Ela fala, afinal de contas”.

O educador denuncia firmemente a “ideologia elitista e autoritária” da cultura escolar como um erro, que ao impor conhecimentos e universos previamente selecionados desrespeita a criança, sua identidade e o mundo onde ela está se fazendo, sob argumentos de que é um mundo ingênuo e cheio de erros diante da gramática e da língua oficialmente adotadas. Lembra o educador que a leitura de mundo, em sentido científico, é um caminho que passa pela sabedoria popular e caminha em direção conhecimento mais rigoroso.

Freire propunha sua alfabetização educadora como exercício de leitura de mundo realizado em círculos populares de cultura, que são o lugar, a posição crítica, enfim o locus de produção de um conhecimento interativo entre educador e educando; entre ciência, mundo e conhecimento popular; entre universos conhecidos e conhecimentos universais; entre texto e contexto.

MULTIPLICIDADE DAS LEITURAS

Mas há ainda outras dimensões possíveis da leitura de mundo, nas quais Paulo Freire pouco adentrou: a de permitir conhecimentos e expressões muito mais ricas que as dimensionadas na ideia de leitura vinda da cultura escolar tradicional e oficiosa. O semioticista e crítico cultural Roland Barthes, sempre revelador de dimensões de leitura, tem um texto muito interessante, escrito para uma conferência que pronunciou em Luchon, em 1975, onde diz:

O verbo ler, aparentemente muito mais transitivo que o verbo falar, pode ser saturado com mil objetos diretos: leio livros, figuras, cidades, rostos, gestos, cenas, etc. Esses objetos  são tão variados que não posso unificá-los sob nenhuma categoria substancial, nem mesmo formal; apenas posso encontrar neles uma unidade intencional: o objeto que eu leio é fundado pela minha intenção de ler; ele é simplesmente: para ler

Em Barthes, o desejo é um elemento fundamental na constituição da leitura, o que não é de modo algum estranho a Paulo Freire, para quem o elemento desejante, de felicidade e boniteza, está estreitamente ligado a educar, embora num viés muito mais coletivo e organizado que em Barthes, já que é um movimento propositivo e emancipatório.

Porém, Barthes é também provocativo da emancipação e propõe essa leitura múltipla: “a leitura é, de direito, infinita, tirando a trava do sentido, pondo a leitura em roda livre (o que é sua vocação estrutural), o leitor é tomado por uma intervenção dialética: finalmente, ele não decodifica, ele sobrecodifica; não decifra, produz, amontoa linguagens, deixa-se infinita e incansavelmente atravessar por elas: ele é a travessia”.

No universo educativo, especialmente junto às crianças, é mais que hora de superar, em dimensão e com horizontalidade democrática, a leitura que ainda predomina entre nós, herança do Século XIX, sua predileção verbal e formato hierárquico, aristocrático. A sociedade já passou pelos meios massivos e hoje conta com a lida cotidiana com imagem, texto e conectividade, pela internet e pelos dispositivos móveis. Como a educação ainda não encontrou outros modos de leitura? Isso só se explica por questões de dominação cultural.

Uma leitura semiótica (de imagens, palavras, sons, cheiros, da política, dos multimeios) combinada com a leitura de mundo e a educação paulofreireana, são caminhos de atualidade, de justiça social e democracia. Não falo de leitura semiótica em sentido acadêmico, mas como educação cotidiana, desde o ensino fundamental. Nos processos arte-educativos da cultura temos muito a dizer sobre isso para nossos colegas educadores.

Quando trabalhei na Secretaria de Cultura, em Ourinhos, desenvolvemos um projeto chamando “Ponto para ler o mundo”, de 2010 a 2012. Fui um de seus criadores e fiz a coordenação pedagógica. O projeto trabalhava com turmas de escolas públicas, em contraturno, juntando vídeo, teatro e jornalismo. O teatro ajudava as crianças a se integrarem criativamente e soltarem a expressividade. O jornalismo ensinava os elementos da notícia e (na época) máquinas fotográficas simples, que filmavam, serviam à captação de imagens. A leitura de mundo entrava na escolha e exploração de temas de interesse das crianças. Elas criavam vídeo-documentários, onde pautavam, entrevistavam e editavam. Esse é um exemplo simples, entre muitíssimos outros, de como aplicar essas novas dimensões e formas de leitura.

O fato é que ainda não adentramos o universo paulofreireano a não ser muito timidamente e um tanto quanto verborragicamente, citando frases mais que criando o universo educativo que nos apontou, e para o qual insistentemente nos incitou.

Referências:

Pedagogia dos Sonhos Possíves, de Paulo Freire, pela Editora Unesp, 2001.

O Rumor da Língua, de Roland Barthes, Editora Brasiliense, 1984.