CONEXÃO CONTRAPÕE ZUCKERBERG

Em 2019, a Tangará Produções Artísticas, sediada em Londrina, teve aprovado o projeto Barracão Tangará, junto ao Programa Estadual de Fomento e Incentivo à Cultura – Profice, do Paraná. O projeto previa desenvolver no barracão que sedia as atividades da companhia circense uma pesquisa estética em torno dos caminhos expressivos do circo, um tipo de laboratório de reflexão e experimentação, englobando a performance acrobática, a gestualidade e a narrativa da linguagem circense.

No projeto, lembraram que perto de seis décadas atrás, as cidades, principalmente pequenas e médias, recebiam pelas lonas circenses os dramas teatralizados, as duplas caipiras e outros cantores do rádio. Debaixo das lonas toda uma população tomava contato com os inesquecíveis palhaços. Eram as lonas circenses grandes provedoras da circulação da cultura. Tudo isso mudou com o avanço do entretenimento massivo que veio com a televisão e as novas tecnologias da comunicação.

O lugar do circo itinerante, de lona, foi sendo ocupado e de então até agora sobraram quase que apenas as grandes companhias transnacionais. Mesmo essas atualmente em crise profunda, em razão da pandemia. O fato, lembrou a Tangará em seu projeto, é que a presença da indústria do entretenimento ocupou o lugar do circo como circuito cultural. É esse o fator decisivos na crise dos circos tradicionais de menor porte: não é possível a eles reeditar o espaço social onde cumpriam um papel de circuito para as expressões artísticas chegarem às populações. Para o público, proviam um acesso que agora já não é esperado, nem desejado.

O que propuseram transcrevo tal qual anunciado no projeto:

Não há outro caminho para a linguagem circense senão reinventar-se na dinâmica da cultura, em relação às formas de criar e circular. As Troupes, que demandam estruturas menores que as antigas lonas, montam espetáculos e circulam com eles em espaços diversos, constituem alternativa para a continuidade e reinvenção da arte circense. Propomos nesse projeto a estruturação do Barracão Tangará como um espaço de pesquisa, treinamento, aperfeiçoamento e apresentações, que possam ser modelares como alternativa circense.”

Propuseram, então, eixos de pesquisa, entre eles a exploração performática da arte circense (acrobacias, aéreos, equilíbrios), onde não só estaria em foco “números circenses”, mas sua exploração como um roteiro, um enredo, um “querer dizer” corporal. A ideia era ter no espetáculo circense a narrativa corporal como capacidade de situar as coisas numa dimensão importante, como sugestão, como ensinamento, etc. E a gestualidade e o movimento corporal como narrativas.

Isso propuseram e assim fizeram, tendo a felicidade de ter o espaço do Barracão, equipado para exercícios, ensaios e apresentações, bem como bolsas que possibilitaram aos jovens integrantes da troupe a dedicação e imersão no processo, por doze meses. A agenda do projeto sofreu adiamentos, por conta da pandemia que impedia tanto o contato necessário à pesquisa quanto o contato com o público. Mas finalmente o trabalho pôde deslanchar, completar-se e ser apresentado um espetáculo resultante: Conexão.

UM ESPETÁCULO DE DANÇA CIRCENSE

Conexão estreou no Barracão Tangará com quatro apresentações iniciais nos dias 29, 30 e 31 de outubro. Em breve, terá nova temporada em Londrina, onde serão realizadas 6 apresentações no Barracão e mais 10 apresentações em entidades e espaços de Londrina. Virão também apresentações em outras cidades, no Paraná e pelo país.

Vou, então, falar de Conexão.

Trata-se de um espetáculo de dança, em sentido contemporâneo e circense, cheia da tensão dos números acrobáticos, que chamam os corpos ao desafio. Antes que se diga que sendo dança não é circo, lembro aqui Mário Fernando Bolognesi, professor titular, já aposentado, da Unesp e professor visitante da pós-graduação em artes cênicas da UFBA, historiador e estudioso da estética circense, que já demonstrou que a história circense está há séculos entrecruzada com linguagens como o teatro, a música e a dança, mas tem sua matriz especifica. Diz ele:

A literatura tem na língua a sua matriz; a música, nos sons; a pintura, nas cores, traços e formas. Qual seria a matéria principal do espetáculo de circo? Linguagem, sons, cores, traços e formas dele participam, mas não chegam a ser fundantes. A matriz do circo é o corpo, ora sublime, ora grotesco. O corpo não é uma coisa, mas um organismo vivo que desafia seus próprios limites.”

Outro importante pensador, Herbert Marcuse, crítico do homem unidimensional objetivado pela lógica econômica e propositor de uma nova educação política do corpo, considera que a arte do corpo belo mostra-se sobremaneira no circo, que “anuncia a alegria pela liberação do ideal, ao qual o homem pode chegar quando a humanidade estiver convertida verdadeiramente em sujeito.”

No espetáculo Conexão, o que encontramos é exatamente essa dimensão corporal. Tudo transcorre sem uma palavra sequer e sem intervalos. A interação entre o público e o espetáculo é uma construção que explora inteligentemente o espaço do Barracão Tangará: cadeiras simples para um público de gente simples, dispostas num retângulo onde o palco fica ao centro. No início, uma tela transparente circunda o espaço do espetáculo e nela se projeta uma imagem de conexão em rede, dessas que costumam aparecer na internet. Ao iniciar o espetáculo, essa tela é retirada, deixando sem filtros a relação com o público.

Foto: Divulgação Tangará produções

Segue-se uma dança acrobática, onde em todos os movimentos e números o que fica claro, acentuado, é a interdependência dos artistas uns dos outros. E se acentua nessa interdependência a realidade muito particular da linguagem circense: nos números os artistas não dependem uns dos outros apenas para o sucesso da cena; dependem para sua própria integridade física. Como disse Mário Bolognese, no circo o público presencia a construção do suspense, do calafrio, seguido de sua superação. No palco ambientado no Barracão Tangará, ficamos frente-a-frente com tudo isso, sentimos muito de perto a tensão e os cuidados necessários de uns com os outros entre os artistas: o risco e a solidariedade são o espetáculo.

E segue a dança e seguem-se números de grande beleza plástica e alto nível de dificuldade e complexidade. A Tangará experimentou e criou números e equipamentos próprios para esse espetáculo, mais baixos em relação às lonas circenses e com aparelhos de chão muito interessantes. Quase todos são números coletivos, mas há também individuais, como a enorme argola onde Juliana Tangará realiza um solo primoroso, de uma poesia visual para não ser esquecida.

CONEXÃO VERSUS METAVERSO

Foi alguns dias depois de assistir Conexão que me veio à consciência sua dimensão e atualidade, por conta de um acontecimento que provavelmente será decisivo na vida próxima-futura da humanidade. A imprensa mundial repercutiu o anúncio feito por Mark Zuckerberg, controlador do Facebook, de que a empresa passaria a ser “Meta”, por deixar de ser uma empresa de mídia social e adentrar no chamado “metaverso”.

O “Metaverso” passa a ser a projeção das pessoas para dentro do universo virtual da internet, através de avatares que navegam nessas realidades alternativas, meio que fabricadas de acordo com a vontade e as projeções que ilusoriamente pensamos sejam de cada um. As tendências desse mercado vão do entretenimento a inúmeras outras possibilidades, quase todas projeções para a “satisfação” de necessidades que a vida e sua sociabilidade dificultam.

A primeira sensação que tive diante da notícia foi não ver nessas perspectivas senão a substituição do mundo vivido, conflituoso, injusto, mas real, por outro onde as pessoas que aparecem são na verdade seus egos projetados. Gente que encontra um ponto de fuga ou alimenta uma ilusão de sucesso e de grandeza fugindo das dores e dos limites da vida. O poeta e compositor Bernardo Pellegrini resumiu bem tudo isso em um verso: “Ser sem ter sido ter sem ter tido / sentir sem ter sentido“. São tendências de merda que já podem ser perfeitamente vistas no Facebook e no Instagram e vão encontrar agora uma plataforma mais sofisticada e dirigida para essa propensão. Zuckerberg e sua corporação sabem disso com precisão.

Foto: Divulgação Tangará produções

Minha segunda percepção foi justamente a de que Conexão era um contraponto a isso. Era a arte dizendo: não tirem os olhos da enorme dificuldade e do grande prazer das conexões que podemos construir, não com a lógica da indústria do ego, mas a de viver com arte e de encontrar numa vida efetiva a realização, que nunca será de verdade se for de um só.

O espetáculo termina com uma pirâmide de corpos possibilitando acender uma luz. Quem acende a luz é uma coletividade que ascende à consciência de sua interdependência. Uma coletividade de fazedores criativos, não de especuladores. Essa coletividade opõe uma ecologia da existência à economia desenfreada de mercado que se alimenta dos egos.

Até antecipo pessimistas que provavelmente vão querer me jogar na cara a diferença de escala de um espetáculo num barracão de Londrina e os planos mundiais da Meta de Zuckerberg e de outras corporações que a seguirão. Melhor não se precipitarem. A escala da arte não é pequena, nem única desse espetáculo.

Por hora, o que vale é reconhecer quão vitoriosa foi a proposta da Tangará, que no final das contas era refletir sobre os espaços alternativos e as possiblidades estéticas circenses, mas acabou mostrando, com as incríveis possibilidades do circo, com a arte do corpo maravilhoso, a importância de uma conexão vívida e vivida. 

Um mantra encerra o espetáculo: “Eu, você, nós!