PAULO FREIRE: A EDUCAÇÃO EM CÍRCULOS DE CULTURA

No centenário de Paulo Freire, nos propusemos destacar a contribuição de suas formulações no que diz respeito à cultura, assunto desse blog. No primeiro artigo, tratamos a importância das temáticas com as quais trabalhar em educação e do modo dialógico de serem definidas entre educadores e educandos. Fizemos uma ponte entre considerações de Freire e de Bertolt Brecht no tocante às escolhas e tratamento da realidade.

Nesse segundo artigo, propomos uma analogia entre os pensamentos de Paulo Freire, o criador da Pedagogia do Oprimido, e os de Raymond Williams, o fundador do campo dos Estudos Culturais, no modo de ver a cultura. Uma primeira constatação é a proximidade como adentraram na temática da cultura e da educação e como, então, erigiram seus fundamentos teorizadores.

EDUCAÇÃO ANTIELITISTA

Williams, filho de uma família rural, com pai ferroviário e sindicalista, cresceu sob inspiração ao mesmo tempo do modo de vida das comunidades rurais e do sindicalismo progressista, de inspiração socialista. Estudou em Cambridge, graças a uma bolsa de estudos, onde também ingressou no mundo acadêmico como decente. Sua visão de cultura nasceu sob experiência e inspiração de um programa de educação de adultos, que o levou a uma revisão do olhar dirigido à literatura em relação à sociedade e aos modos de vida.

O texto “A cultura é de todos”, ou, em outra tradução, “A cultura é algo comum”, de 1958, é tido como marco do nascimento dos Estudos Culturais. Nele, diz Williams: “Usamos a palavra cultura nesses dois sentidos: para designar todo um modo de vida – os significados comuns -; e para designar as artes e o aprendizado – os processos especiais de descoberta e esforço criativo”.

As considerações de Williams sobre a cultura se baseiam no antielitismo. Ele dizia, no texto de 1958, referindo-se a um grupo de intelectuais arrogantes que conheceu em Cambridge, que se auto diferenciavam por crer-se “cultos” (todos, infelizmente, conhecemos esses grupos de algum lugar): “Pergunto-me que espécie de vida pode produzir essa minudência, essa decisão extraordinária de definir certas coisas como “cultura” e então isolá-las, como se construindo um muro em volta de um jardim, das pessoas comuns e do trabalho comum”, protestou.

Paulo Freire nasceu em Recife, capital de Pernambuco, e cresceu em comunidade, sempre tomado pela preocupação com a população mais pobre. Em 1961, como diretor do Departamento de Extensões Culturais da Universidade do Recife, iniciou suas experiências de alfabetização popular junto a canavieiros.

O primeiro livro, Educação como Prática da Liberdade, publicado em 1967, ocasião de seu exílio no Chile, relata o nascimento de suas conceituações como educador, no bojo de um esforço pela libertação das camadas populares da condição de opressão e pela sua inclusão numa democracia social: “Necessitávamos de uma educação para a decisão, para a responsabilidade social e política”, escreve Freire, e a define assim: “Uma educação que possibilitasse ao homem a discussão corajosa de sua problemática. De sua inserção nesta problemática. Que o advertisse dos perigos de seu tempo, para que, consciente deles, ganhasse a força e a coragem de lutar.”

CONTRA O QUIETISMO E A MASSIFICAÇÃO

Paulo Freire dedicou um capítulo de seu primeiro livro a combater a educação massificante, “uma educação que leva o homem a posições quietistas ao invés daquela que o levasse à procura da verdade em comum, ‘ouvindo, perguntando, investigando’.” No momento em que iniciava sua visão de educação popular, Freire e outros companheiros e companheiras projetavam a educação de adultos em Círculos de Cultura. Era preocupação nesse Círculo uma educação para o desenvolvimento e para a democracia, que, entendiam, fosse resistência ao desenraizamento constantemente produzido pela civilização industrial.

Raymond Williams, em seu primeiro livro publicado, “Cultura e Sociedade”, de 1958, faz uma imersão em palavras-chave para o entendimento da vida contemporânea, como “indústria”, “democracia” e “cultura”, e o faz combatendo visões massificantes, destrinchando relações em torno dos termos “massa”, “civilização de massa”, “democracia de massa”, “comunicação de massa”. O uso de tais termos, para ele decorre dos fenômenos industriais, da concentração urbana nas cidades industriais e do trabalho em escala industrial no contexto capitalista.

O que está em jogo, escreve Williams, “não é apenas a ingenuidade, a volubilidade, o preconceito de rebanho e a vulgaridade de gosto e de hábitos”, que configurariam certa visão da massificação como fenômeno, mas também o temor dominante pela possibilidade de as classes trabalhadoras alterarem os rumos da sociedade, de maneira a colocar em risco privilégios dominantes. E Williams pontua: “Parece-me que quando isso é considerado, que o que está sendo questionado não é a democracia de massa, mas sim a democracia”.

Não existem massas, verdadeiramente, mas maneiras propositais de ver as pessoas como massa, com objetivos de exploração política e cultural, pontua o pensador dos Estudos Culturais. Trata-se de uma fórmula orientada pela intenção: “Se nosso objetivo é a arte, educação, dar informação ou uma opinião, nossa interpretação será em torno do ser racional e interessado. Se, por outro lado nosso objetivo é a manipulação e a persuasão  de um grande número de pessoas para que ajam , sintam, pensem, conheçam de determinadas maneiras – a fórmula conveniente será a das massas”.

“Cultura e Sociedade”, quando lançado, propôs e provocou uma reanálise da conceituação de cultura, uma revisão dos textos literários à partir de releituras deles por Williams, considerando palavras-chave e a importância de tais palavras na estrutura de significados sociais em torno dos quais nos movimentamos, como “sociedade”, “democracia”, “cultura”, pondo tudo em relação à vida comum, ao modo de vida, à mundanidade.

De onde veio essa revisão? De colocar textos e autores que tratavam das mudanças da contemporaneidade sob a interpretação e em convergência com os modos de vida das classes populares, num projeto de educação de adultos! “A demanda, então, era por uma discussão dessa literatura em relação às situações de vida que as pessoas estavam enfatizando fora dos sistemas educacionais institucionalizados, tanto na educação adulta quanto na frustrada educação superior das mulheres”, escreveu Williams em um texto de balanço sobre os estudos culturais, publicado em “Política do Modernismo”, livro lançado postumamente, em 1989.

CÍRCULOS DE CULTURA

Em “Ação Cultural para a Liberdade”, de 1981, Paulo Freire tece uma crítica à educação dominante por considerar a mente do educando como “vazia” para o depósito do conhecimento e das palavras e situações que se seleciona para ele, de cima para baixo, como se fosse subnutrido de conhecimentos e cultura, na verdade tratando-se o analfabetismo como intrínseco a uma situação de inferioridade naturalizada, impingida aos segmentos pobres e populares.

Opondo-se a isso, propõe o ler e escrever como reflexão crítica sobre o significado da linguagem como expressão social, como linguagem-pensamento sobre o mundo, “palavração”, no seu dizer. “Neste esforço, os educandos, como sujeitos cognoscentes, percebem relações entre os fatos sobre que discutem que antes não percebiam. A codificação, em última análise, no contexto teórico, transforma a quotidianeidade que ela representa num objeto cognoscível.” Como Freire chamava esses pontos de aprendizagem? Círculos de Cultura, “lugares onde os alfabetizandos se engajam na prática da teoria de sua prática”. Não por acaso, o educador também chama “assunção cultural”, esse movimento onde as classes populares elevam sua leitura de mundo.

Se Williams propôs uma revisão da cultura baseando-se numa releitura social e cultural das palavras-chave que definem a sociedade contemporânea, Paulo Freire propôs uma pratica educativa cultural em torno do que chamou de palavras geradoras em torno das quais se organizam os conteúdos programáticos educativos como círculos de cultura onde educadores e educandos exploram signos linguísticos como entendimento comum sobre o trabalho, a vida em comunidade, a situação social, etc.

No processo de alfabetização, as palavras-chave são decompostas silabicamente, compondo outras palavras, mas não só. Sempre estarão compondo leituras de mundo, vivências de compreensão e transformação. “Estas codificações, sublinhemos uma vez mais, são objetos de conhecimento que, nos Círculos de Cultura – contextos teóricos – se dão ao desvelamento dos sujeitos cognoscentes – educador-educando, educando-educador.”

CONQUISTAR A APLICAÇÃO DE PAULO FREIRE

Da analogia entre Freire e Williams, percebe-se facilmente uma visão de cultura como algo em comum, algo relacionado à vida social comum e significados sociais, mas ao mesmo tempo como movimento contestador e transformador, pela socialização do conhecimento, da leitura de mundo e da arte como processo expressivo.

Particularmente em Paulo Freire, esse esforço se dirige a um modo de alfabetização e educação que corresponde à assunção cultural e democrática das camadas populares, enquanto em Williams a vocação maior é a releitura da cultura como apropriação criativa, social e emancipadora dos significados.

Uma coisa é preciso clarear: a potência transformadora de Paulo Freire tem um patamar que não coaduna com a cultura escolar predominante. Não por acaso, sua companheira e biógrafa, Nita Freire, assim como José Eustáquio Romão, diretor-fundador do Instituto Paulo Freire, destacaram no período recente de ataques bolsonaristas ao patrono da educação no Brasil, que há no país muito mais o uso pontual de suas considerações do que política pública educacional aplicando seu pensamento educativo-cultural.

A aplicação de Paulo Freire é muito mais uma condição a ser conquistada do que uma condição real. O bolsonarismo é inimigo feroz de Paulo Freire. Fala em miná-lo da educação como investida contra suas possibilidades, na exata medida em que o conservadorismo neofascista, no panorama internacional, quer influir política e culturalmente para minar a cultura como diversidade que transforma.

REFERÊNCIAS DE LEITURA:

De Raymond Williams:

– “A Cultura é algo comum”, texto de abertura do livro “Recursos da Esperança”, publicado pela Editora Unesp.

– “Conclusão”, texto de encerramento de “Cultura e Sociedade”, publicado pela Editora Vozes.

– “O futuro dos Estudos Culturais”, texto de “Política do Modernismo”, pulicado pela Editora Unesp.

De Paulo Freire:

– “Educação como prática da liberdade”, Editora Paz e Terra.

– “Ação cultural para a liberdade”, Editora Paz e Terra.

– “Pedagogia do Oprimido”, Editora Paz e Terra.

Agradecimento de coração ao amigo Reberson Alexandre, brilhante ilustrador e designer, pela criação da ilustração que acompanha este artigo.