VERSOS FANTÁSTICOS NA RETOMADA

Neste último final de semana, dia 16 de outubro, vivi um momento comovente. Ministrei minha primeira oficina presencial depois que se iniciou a pandemia, a convite do Sesc Cadeião. Foi a Oficina de Versos Fantásticos para Adultos e Crianças, trabalhando criação poética com inspiração na estética nonsense que Edward Lear e Lewis Carrol propuseram, ainda na Inglaterra vitoriana, em torno dos anos 1850.

Voltar a fazer essa atividade presencialmente foi alegria por dois bons motivos. O primeiro,  demarcar uma esperança de estarmos superando a pandemia, apesar do governo Bolsonaro ter abandonado a população a própria sorte e jogado contra a vida todo esse tempo. Fizemos a oficina com uso de máscara e o distanciamento necessário, mas com muita alegria e calor humano.

O outro motivo de felicidade: pela primeira vez, desde que em 2012 criei a Oficina de Versos Fantásticos, reuni numa mesma oficina crianças, seus pais e mães e educadores, graças à disposição experimentadora da Samantha Abreu, programadora do Sesc Cadeião, que topou minha sugestão. Eu a havia realizado ou para grupos de crianças, ou para adultos, especialmente educadores. Foi um desafio as idades juntas na mesma vivência e quero contar como trabalhei.

ASSUMIR O RIDÍCULO

Desde o início da oficina, fui dialogando com os dois grupos, ora falando mais com as crianças, ora falando mais com os adultos, ora falando sem ter em vista nenhuma das idades, especificamente. Com as crianças, o tom sempre brincante, focado em que ficassem à vontade, como alguém disposto a brincadeiras.

Com os adultos, tive a preocupação em localizar bem as coisas. Disse-lhes que o adulto brincar com a criança pode e deve ser uma fonte de prazer para ambos. Há uma máxima do senso comum, de o adulto “voltar a ser criança”, ou “deixar sair a criança que tem dentro de si”. Disse que considero isso um engano. O adulto já é adulto, passou pelas coisas da vida e os costumes sociais e carrega isso consigo, enquanto a criança é experimentadora diante do que vive e vê, conforme as fases de sua infância.

O adulto, portanto, deve conquistar um lugar de prazer em brincar com a criança, que normalmente foi deixando passar, mas irremediavelmente deve fazer isso como adulto. Lembrei-lhes de um amigo, Tião Balalão, contador de histórias, que me dizia: “Para brincar e interagir com as crianças, tem que perder a vergonha do ridículo. Tem que assumir a ridicularia.” Ora, ele estava certo. Normalmente não brincamos com as crianças porque temos vergonha de nos expor aos outros adultos como ridículos. Uma baita bobagem. Com a preocupação de parecer “normais”, perdemos mais do que ganhamos.

Contei para o pessoal que estava na oficina uma brincadeira que eu e minha sobrinha Lara, de 5 anos, estamos fazendo ultimamente. Um começa a desafiar o outro com coisas do tipo: “- Você está com cara de girafa que comeu cereja!” O outro entra na briga: “- Você está parecendo um cachorro comendo minhoca.” E assim vai, por uma hora às vezes. É uma delícia. Uma brincadeira inventiva, mobilizadora de energias. Até pensei que um bom nome poderia ser “Jogo Jocoso”.

Enfim, é muito bom brincarmos com as crianças. E o adulto deve brincar como um adulto bem disposto, que brinca permitindo-se, e permitindo às crianças, o uso livre da imaginação.

Bem, isso dito, entramos no objetivo da oficina, criar poesias, e disse que muita gente fica com temor de não saber direito o que seria poesia e de experimentar criar uma. Então, eu tinha uma mágica para resolver isso, Ou melhor, eu tinha uns sacos mágicos de criar poemas, para nos dar uma ajuda.

Foto: Samantha Abreu

SACOS MÁGICOS, RISOS FÁCEIS

Iniciei a oficina com um jogo chamado “Sacos mágicos para criar poemas”. São dois saquinhos, onde, em papel enrolado, estão frases.

No saquinho número 1 vão frases que apresentam um personagem:

– Valentim era um empresário chinfrim, mas só andava de smoking.

– Colombino tinha corpão de rinoceronte e olhar arrogante.

– Euzébio bancava o sábio e só falava provérbios.

– Gervásia era um grande e magra matemática.

– Aracéli falava, falava. Mas não era séria.

No saquinho número 2 vão ações ou características de seus comportamentos:

– Fazia um prato delicioso, com batatinha quando nasce.

– Acreditava, feliz, que morava na lua.

– Era uma lady, no perfil no facebook.

– Chorava de dar dó, na barragem do Igapó.

– Jurava de joelhos, que jamais olhou no espelho.

 Uma pessoa que escolho vai tirar um dos papeizinhos do saquinho 1 e ler. Em seguida, outra vai tirar uma papelzinho do saquinho 2, e a coisa se completa, por exemplo, assim:

“Gervásia era uma grande e magra matemática, que chorava de dar dó, na barragem do Igapó!”

O riso foi imediato entre os participantes. As crianças riram com mais facilidade, mais espontaneidade. Enfim, estava ganho o território da oficina: Acharam graça das personagens inusitadas, das rimas nas palavras, das situações incomuns. Perceberam de imediato, sem nenhuma definição “científica”, o jogo poético e brincalhão nonsense.

Depois de repetir umas três vezes o sorteio, anunciei:

“- Agora não precisamos mais da ajuda dos sacos mágicos. A magia está em nós. Vamos criar nossos poemas!” E propus um novo jogo.

JOGANDO PEDRAS NA LAGOA

Perguntei ao grupo: O que acontece quando jogamos pedrinhas numa lagoa? Um adulto respondeu: “- Formamos ondinhas que vão reverberando.” Uma criança completou: “Ela afunda!”

Disse-lhes que as duas coisas aconteciam. As reverberações e a ida ao fundo, mexendo com o que estava lá, quieto e desconhecido. E que eu ia propor a eles umas pedras, que a gente ia deixar fazerem ondas e mostrar o que não podíamos ver. As pedras foram palavras escritas verticalmente. A gente iniciava na horizontal uma frase sempre tendo a letra da palavra-pedra como início, e tendo como exemplo as frases dos saquinhos mágicos, só que agora um pouco mais, formando uma pequena história.

Eis as “pedras” que propus e eis os resultados criados na oficina a partir delas:

Fenix era um ogro bobo,

O coitado comia lodo,

Gostava, ao luar, de dançar balé.

Ouvi que não tinha sapatilha no pé…

…………………………….

Laurecir era uma lesma que amava rir

Ela parou, porém. Não saia do lugar,

Só ficava na mesma!

Melecou, por preguiça, toda a mesa

Até que uma abelha picou o bumbum da lesma…

…………………………….

Nena era uma elefante costureira,

Ela tinha, advinha, medo de agulha.

Viajou para a Nicarágua à procura de cura

Encontrou solução, afinal, num dedal anormal.

Nesse jogo, crianças e adultos foram dando sugestões e as coisas se completando. E, creiam, foi assim mesmo, com muita atividade por parte das crianças.

AS PERGUNTAS DE NERUDA

Contei na oficina que nos anos em que trabalhei na Secretaria de Cultura de Ourinhos, eu viajava de Londrina para lá e tinha uma rotina. Na banca da rodoviária, em Londrina, comprava um livrinho de bolso com os casos do inspetor Maigret, de Georges Simeon, e lia metade na ida, outra parte na volta. Um dia, não tinha mais dessa extensa coleção. Já havia lido todos. Então comprei um livrinho de Pablo Neruda, o “Livro das Perguntas”.

Percebi que tinha um tesouro nas mãos, com poemas-pergunta, como esses:

– “ Por que o arroz tem infinitos dentes brancos?”

– “Por que não ensinam os helicópteros a tirar mel do sol?”

– “Que distância, em metros redondos, há entre o sol e as laranjas?”

Eu percebi naquela época que aquele era um jogo criativo muito interessante. Contei isso ao pessoal, e imediatamente propus. Vamos criar nossas “Perguntas de Neruda”?

Ei-las:

– Por que a joaninha não se veste de listrinha?

– Por que o tigre não se veste de bolinha?

– Porque não quer se vestir de Joaninha!

…………………………….

– Por que o café não dá mais pé?

…………………………….

– Quantas saladas tem dentro do verde?

Observem que as três primeiras frases criadas estão relacionadas. Na oficina as coisas se passaram assim: um adulto falou a primeira pergunta. Outro adulto emendou a segunda. E a terceira foi uma criança, que não resistiu a dar sua resposta. Coisa de criança…

VIAGENS FANTÁSTICAS

Nessa altura da oficina, propus um jogo criado por mim mesmo, que faz parte de uma seleção de poemas que criei, com esse nome, “Viagens Fantásticas”. Disse que nessa atividade criativa, imaginassem um jornalista que inventava assuntos para matérias malucas, e dei dois exemplos de meus poemas:

Um dia vou ao Congo

conhecer uma girafa sonolenta

pedir que baixe o pescoço longo

pra ver se tem remelas

nos profundos olhos dela.

…………………………….

Um dia vou à Paris

Conversar com um chafariz

Que borrife lágrimas dos olhos

E até pelo nariz.

Quero saber se é desperdício d’água

Ele chorar tanta mágoa.

Depois da explicação, a oficina criou suas viagens:

Um dia vou até Quito.

Lá tem muito mosquito.

Quero saber se eles zumbem,

E se gostam de pudim,

Porque suas picadas são o fim!!

…………………………….

Um dia vou pra Saudade,

Uma cidadezinha pequena

Que nem se sabe onde fica,

Mas todo mundo sabe como sente,

Quando aperta na mão da gente.

A PROJEÇÃO

Só depois de toda essa vivência criativa apresentei os fundamentos e personagens que me inspiraram na criação dessa oficina, com uma projeção de slides falando do nonsense criado por Edward Lear e Lewis Carrol, num período histórico marcado pelo surgimento das grandes cidades industriais, com sua urbanidade poluída,  com a impessoalidade nas rua e a ocupação sem dó da mão de obra infantil. A arte nonsense surgiu como um contraponto, preocupada em oferecer fantasia e despertar a imaginação.

Contei que o poeta e educador Gianni Rodari, de quem emprestei o exercício “Pedras da Lagoa”, achava que o Nonsense não só foi criado para crianças, como havia surgido a partir delas e de suas brincadeiras associativas com palavras, vivificadas de fantasias.

Por essa parte as crianças não mostraram tanto interesse. Elas preferiram criar. Mas ficaram bem interessadas quando mostrei nos slides os papagaios e as ilustrações criadas por Edward Lear, junto com alguns de seus Limeriques, traduzidos por mim.

São maravilhosos. Mas isso é assunto para outro artigo.

Por hora, espero que tenham gostado de saber como foi a oficina, do meu ponto de vista. Obrigado, Samantha Abreu. Obrigado, Sesc Cadeião.