CARINA E A MAGIA DO FACES DE LONDRINA

Em 17 de setembro, perdemos Carina Corte, bailarina e coreógrafa, criadora e coordenadora do projeto Faces de Londrina, que por mais de uma década desenvolveu nas periferias um trabalho de dança com crianças, com as perspectivas transformadoras da arte. Para a cidade ofereceu belíssimos espetáculos e coreografias, baseadas na coletividade dos corpos.

No dia de sua ida, escrevi que temos para com ela uma dívida que não sabemos ainda medir. De 2001 até 2008, a Rede Cidadania integrou mais de 50 projetos que atuaram anualmente nas periferias da cidade com oficinas culturais. Entre esses projetos, o Faces de Londrina foi um dos grandes responsáveis por esse programa cultural premiado desenvolver o conceito de “oficinas de criação cultural”.

Pode parecer simples e óbvio que uma oficina cultural seja criativa, mas não é. Está longe de ser óbvio. O fato é que isso exige que se passe de uma aula de técnicas para um processo de criação coletiva, sendo a criação o motor que estimula a força de vontade e a imaginação dos participantes. Mais ainda, requer compreensão estética que rompe com padrões para colocar uma perspectiva onde a arte seja possível para todas as pessoas. Para todos nós, que fizemos a Rede Cidadania entre 2001 e 2008, Carina Corte mostrou os infinitos horizontes que uma oficina de criação pode ter. E nós pudemos ver isso se realizar nos palcos e ruas, nas apresentações dos espetáculos criados no projeto, sob seu comando mágico.

Em 2014, fiz uma longa entrevista com Carina sobre o Faces de Londrina, para uma pesquisa acadêmica. No trabalho, eu seguia o recorte de estudar o projeto cultural proporcionando uma apropriação comunicativa diante da cidade e da vida social, baseado na noção desenvolvida por Raymond Williams nos Estudos Culturais. Nessa noção, a comunicação – vista pela ótica da vida cultural – deve ter caráter comunitário; escapar às tendências massificadoras dos meios massivos e proporcionar às pessoas conhecerem e reconhecerem umas às outras como tal. Tomei o cuidado de não falar absolutamente nada com Carina sobre o recorte antes da entrevista, evitando que suas palavras ou sua avaliação fossem de alguma maneira influenciados. Passamos mais de três horas conversando. Publico abaixo o texto resultante da entrevista, como foi escrito por mim em 2014.

O FACES, VISTO POR CARINA CORTE

O processo que deu origem ao projeto Faces de Londrina começou em 2001, quando o Programa Rede Cidadania iniciou a implantação de oficinas culturais nas diversas regiões do município, entre elas as oficinas de iniciação à dança, estas em parceria com a Fundação Cultura Artística – Funcart. Carina Corte estava chegando à Londrina neste mesmo ano, “sem dinheiro nenhum”, relata ela, para integrar-se ao corpo de dança do Ballet de Londrina, gerido pela Fundação. “Peguei as oficinas da Rede Cidadania no Jardim São Jorge e nos conjuntos São Lourenço e Santa Fé, como forma de melhorar minha renda. Comecei a dar aula para as crianças junto com outros professores que compunham o Ballet”.

Processos de criação artística, ao deslocar seus eixos sociais, provocam mudanças nas próprias noções e ações estéticas que os formaram. A coordenadora do Faces de Londrina, logo ao princípio da entrevista apontou que o Faces de Londrina é fruto dessa percepção. “Logo percebemos que só aulas de dança era muito pouco. Não bastava tirar as crianças da rua, como se costuma dizer, e dar aulas de dança. Aulas de dança para que?” Junto com o questionamento surgiu a ideia de transformar a iniciação à dança num projeto em que as crianças vivenciassem todo o processo da dança, como a organicidade de um grupo e a montagem e circulação de um espetáculo. Carina Relata:

Pensamos o Faces para as crianças vivenciarem o processo de dança. Iniciamos o projeto em 2002 e nos dois primeiros anos houve um convencimento junto aos professores para o tipo de dança que deveríamos trabalhar. Na época, só trabalhávamos o balé clássico em Londrina e não tínhamos experiência de outro tipo de aula que não o alongamento na barra, pliê, etc… 

O caminho que norteou as mudanças partiu da importância de improvisações corporais e de dar autonomia para as crianças criarem coreograficamente, o que exigiu da equipe de oficineiros do projeto aprender fazendo. Mesmo para Carina Corte, que vinha de ter feito faculdade de dança e experimentado diferentes noções de trabalho com a linguagem artística, tratava-se de um desafio, pois nunca havia participado de um trabalho em comunidades carentes. “Acho que o Faces desenvolveu uma energia muito própria dele, de superar dificuldades. Quando uma dificuldade surge, a primeira coisa que fazemos é procurar uma solução, nunca deixando nada atravancado”.

O Faces de Londrina surgiu com a proposta de unificar as oficinas de dança nas várias regiões em torno da criação de um único espetáculo, envolvendo todas as crianças participantes, que sempre, em todos os 12 anos de projeto, foram mais de 150. Conforme a coordenadora Carina Corte:

Queríamos que dialogassem numa mesma criação coreográfica e fomos trabalhando essa ideia, aprimorando. Lançamos mão da noção de Dança Coral, uma técnica criada por Rudolf Laban, coreógrafo que estudou a linguagem do movimento, de modo que a dança pudesse ser exercitada por grandes grupos de leigos.

Carina conta que foi partindo dessas técnicas onde todas as crianças pudessem dançar, explorando ritmos, trabalhando as coreografias no espaço, que foram encontrando os jeitos de fazer.

Por ocasião de entrevistar Carina, acompanhei os ensaios gerais do espetáculo “Flor das Águas”, montagem do ano de 2014. Eles podem ser descritos como um momento de unificar e sincronizar movimentos que vêm sendo ensaiados nos vários pontos onde são desenvolvidas oficinas. A atenção das crianças é total, e não só a sincronia da movimentação é trabalhada, mas também a postura e a atenção cênicas, como se já estivessem diante do público. As crianças e adolescentes, com idades entre 6 e 16 anos, ficam atentas aos comandos rápidos dos oficineiros e principalmente de Carina, que comanda a criação coreográfica e os ensaios.

Os comandos dela são impacientes com a desatenção, mas geralmente acatados sem que causem constrangimentos, como parte da necessidade criativa. De vez em quando, para aliviar a tensão, Carina fazia uma graça, mas sempre alertando para a essência de um espetáculo artístico, que é relacionar-se e comunicar-se com o público: “- Olha a postura, tem que mostrar para o público!”, repetia constantemente. E seguiram-se, por três horas, constantes exercícios onde os grupos dançam no espaço que simula o palco, se misturando em sincronia, dançando coreografias onde a beleza e o sentido ficam por conta da movimentação coletiva.

O que torna marcante na cidade o Faces de Londrina são as apresentações dos espetáculos montados a cada ano. Mas o que acontece com as crianças quando se apresentam? A resposta da Coordenadora Carina Corte para esta pergunta dá a dimensão do projeto, quando diz que “ao invés de tirar as crianças da rua, é como se a gente devolvesse a rua para as crianças”. Quando fala “devolver a rua”, trata-se de uma figura de linguagem onde a rua representa a cidade como um todo.

Quando nos apresentávamos no Ouro Verde, você tinha mães empregadas domésticas faltando aos serviços para preparar e acompanhar a ida ao teatro, pela primeira vez entrando num teatro, para ver seus filhos no palco. Ao mesmo tempo, tinha crianças lá no fundo do palco, desmaiando antes de entrar em cena. De cerca de 150 crianças que entravam no palco, teve um ano em que 10 delas desmaiaram, por causa do emocional delas, por estarem entrando num palco pela primeira vez, com aquela luz, aquele palco. Quem viu no Ouro Verde sabe a comoção que era.

Carina relata que atualmente realizam menos apresentações, mas que no período da Rede Cidadania, até 2008, faziam mais de 20 apresentações, em palcos, praças e escolas. Trata-se de uma comunicação privilegiada com o ambiente da cidade, protagonizada por crianças que, em muitos casos, antes mal haviam saído de seus bairros de origem.

Trabalhar artístico e culturalmente com comunidades carentes significa entrar em contato com realidades difíceis, que trazem conflitos e crises para quem está trabalhando. Carina Corte se considera “sortuda” de ter se lançado a realizar o projeto e relata que no início tinha o sentimento de querer adotar as crianças, por sofrer demais com as coisas que aconteciam com elas.

Teve crianças que viram a mãe ser estuprada, outras o pai ser morto, outras a irmã ser encontrada drogada e estuprada em um motel. Eu adoecia. Queria ser a mãe de todo mundo”, conta. “No trabalho, tenho a impressão de que somos como uma Xuxa para as crianças. Elas querem ficar perto e abraçar. Tudo que falamos pode ser tomado como verdade absoluta. Chegou um momento em que me isolei, depois de passar por isso por quase dois anos. Só depois consegui dar carinho para elas e não adoecer.

A participação em um trabalho criativo é o que motiva o engajamento das crianças no projeto e a superação dos problemas dentro dele. Comento com Coordenadora a atenção que percebi por parte das crianças nos ensaios e a maneira como ela e os outros oficineiros gritam corrigindo movimentos ou chamando atenção, e perguntei a ela como via a relação entre essa autoridade e a diretriz de desenvolver nelas a criatividade. A resposta aponta para o sentido da “Ação Comunicativa” proposta por Habermas: uma negociação que considera a intersubjetividade e estabelece um consenso:

Todo mundo que vai ver um ensaio do Faces acha as crianças muito educadas. Até nós nos perguntamos o que acontece. Se falamos ‘- Silêncio!’, todo mundo fica concentrado. Se é numa escola particular, ninguém está nem aí. Acredito que seja pelo interesse delas em que a coisa dê certo. A gente fala muito do quanto é importante construirmos o espetáculo e que vamos todos ajudar um ao outro.

Carina explica que os momentos maiores de participação criativa não acontecem nos ensaios gerais, mas nas aulas anteriores, em cada localidade.

A gente trabalha nas aulas considerando o chão, o espaço. Trabalhamos alongamentos e deslocamentos diagonais em grandes locomoções. Em toda aula, há momentos para improvisações. Usamos palavras motivadoras da imaginação ou comandos de movimentos, como chutar, movimentar-se na diagonal se soltando, e vamos estimulando e percebendo coreografias surgindo. Quando começa a montagem temática, sempre há ideias e trocas e perguntamos o que fazer em casos diversos que queremos representar. Quando a coreografia evolui dos locais para o grande grupo, o trabalho maior é coordenar o que está sendo lapidado.

Em doze anos de projeto, foram montados quase um espetáculo a cada ano. Para isso, um caminho foi traçado pela coreógrafa e coordenadora: começar com o foco nas pessoas, em seu universo; depois passar pela cidade, pelo país e enfim abranger o mundo. O primeiro espetáculo, em 2003, chamou-se “Felicidade” e tinha como foco inquirir as crianças sobre seus maiores medos e suas felicidades. Carina Corte relata o susto da equipe do projeto ao depararem-se com medos como “tenho medo de levar um tiro”, “minha mãe morrer esfaqueada”, muito concretos. Em 2004, o espetáculo encenado chamou-se “Faces de Londrina”, mesmo nome do projeto, pois acharam por bem mostrar à cidade em seus 70 anos as faces que a compunham anonimamente. Em 2005, terceiro ano do projeto, o espetáculo foi “Eu, não. Nós” e o tema foram as diferenças, mostrando que todos podem estar juntos sem se anular e sem ser discriminado, sendo negro, branco, alto, baixo, magro ou gordo.

No quarto ano, em 2006, o espetáculo foi “Travessias”, que a Coordenadora elege como um de seus favoritos, e que tratou sobre as travessias do universo infantil, como aprender a andar de bicicleta, passar a escola e outras. “Falares”, em 2007, explorou as diversidades linguísticas, listadas a partir de palavras curiosas listadas pelas crianças, depois separando as que melhor se conectavam. A trilha sonora do espetáculo foi criada pelo músico Marco Tureta, em cima das palavras. As coreografias foram inspiradas nessa trilha.

A mudança dos universos das crianças e da cidade para o universo brasileiro deu-se em 2008 com “Caminhos”. Carina Corte conta que foi traçada uma estratégia para falar dos brasileiros, com cada unidade do projeto ficando com uma região do Brasil para pesquisar: Sul, Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Foram pesquisadas manifestações culturais e musicais.

Colocamos as músicas para as crianças inicialmente sem falar de onde eram. Cateretê, Maracatu, Candomblé, Frevo, etc. As crianças dançavam de modo muito semelhante às danças de cada região e percebemos claramente que os ritmos ditavam os movimentos e muitas manifestações culturais já estavam inseridas, sem termos consciência de suas origens.

Este espetáculo, segundo a Coordenadora, marcou uma intensificação da participação criativa das crianças nas coreografias. “As crianças dançavam de outra maneira, se apoderaram dos movimentos, não eram mais movimentos sugeridos, era quase tudo delas”.

Em 2009, nova mudança significativa com “Na Palma da Mão”, abrindo para o universo e a vida como tema, puxando pela ligação do indivíduo com o todo, espetáculo repetido em 2010. Em 2011, veio “Protótipo”, sobre as caixas em que a sociedade enquadra as pessoas. “Você tem que ser loiro, andar de um jeito, seguir essa tendência”, explica a Coreógrafa sobre o caminho crítico adotado, completando enfaticamente: “As crianças adoraram. Adoraram!”.

Em 2012 o espetáculo foi Amaná. Era aniversário de 10 anos do projeto e o espetáculo falou sobre sua trajetória e as trajetórias das crianças. “Queríamos falar da trajetória do Faces como um rio correndo; o modo como as coisas vão chegando, vão aparecendo, vão acontecendo. Tudo é muito fluido, como um rio”, explica Carina Corte. Anima, continuou na linha de Amaná e, em 2013, inspirou-se em animar, em fazer viver. Em 2014, novamente a água e a fluidez vieram a completar esse ciclo, com o espetáculo “Flor das Águas”, onde remar, pescar, atravessar, continuam sendo inspirações coreográficas.

Perguntada sobre o que de principal o projeto Faces de Londrina deixa para as crianças que ao longo do tempo fizeram parte das atividades, Carina Corte respondeu:

O que acontece é que começam a se comunicar um com o outro, com o amigo, com o pai, com a gente que trabalha no projeto. Perdem o medo de se comunicar. Você vê crianças de seis anos no projeto que não tem problema nenhum em falar o que pensa para nós. É claro que a criança que está há seis meses no projeto é diferente neste sentido da que está há dois anos. Mas o que falo é que o Faces dá autonomia para estas crianças. Dá esperança para elas conseguirem alcançar as coisas. Entre os que fizeram o projeto, a gente tem bailarinos no Bolshoi, tem em outras companhias, fazendo faculdades e sendo pedreiros, mas sempre sendo pessoas. Espero que fazendo o Faces todos percebam que podem viver, não só sobreviver.

A Coordenadora define a palavra “comunicar” como comunicar-se com o outro com uma postura corporal, “quando tira o peito que está para baixo e aponta para frente; quando os ombros relaxam; quando o olhar para as coisas é de frente e não de baixo. É comunicação numa outra esfera”.

* Pretendo publicar ainda outro texto, com a visão das crianças sobre o projeto.