PAULO FREIRE E AS TEMÁTICAS EM EDUCAÇÃO: COMPREENDERTRANSFORMAR!

Neste 19 de setembro, data de nascimento e ano do centenário de Paulo Freire, inicio uma série de artigos sobre o educador, que vou escrever com frequência aqui no LUMINARES.SITE, sempre relacionando seu pensamento com o universo da cultura, centro das atenções aqui no blog.

Inicio por um tema propício para começos: o trato da realidade. A importância que isso tem, do ponto de vista da cultura e da educação. Paulo Freire foi insistente nesse ponto, especialmente em “pedagogia do Oprimido”, uma das 50 obras mais recomendadas para leitura em universidades de todo mundo, segundo levantamento de pesquisadores da Universidade de Columbia, que pesquisaram 79 países, em levantamento de 2016.

Diz Freire que a dialogicidade em educação, entendida como uma interação protagonista entre professores e alunos na criação e transmissão de conhecimentos, começa quando o educador, sendo também educando, pergunta a seus educandos, que são também educadores, em torno do que irão dialogar na busca por melhor conhecer.

A escolha em comum do campo de conteúdos já sinaliza que não se deve impor ou transmitir a educação ao povo, mas de delimitar e organizar as inquietações populares, vindas da situação concreta, existencial, das pessoas, comunidades e grupos sociais.

A realidade vai ser delimitada como problemática para ser compreendida e transformada. Serão trabalhados níveis de percepção das pessoas em relação ao mundo. “É na realidade mediatizadora, na consciência que dela tenhamos educadores e povo, que iremos buscar o conteúdo programático da educação. O momento deste buscar é o que inaugura o diálogo da educação como prática da liberdade. É o momento em que se realiza a investigação do que chamamos de universo temático do povo ou o conjunto de seus temas geradores.”

A percepção freireana da educação como problematização transformadora da realidade encontra sintonia fina com a noção de Raymond Willians sobre cultura, considerada elemento comum à vida das pessoas, impregnada de modos de vida, mundana: “A cultura é de todos. Devemos começar por aí!”, afirma o estudioso inglês, reconhecendo como culturais e repletos de mundanidade os processos econômicos, os artísticos, os científicos e os cotidianos, ainda que envoltos em invólucros diferentes, alguns arrogantes em relação aos outros.

Também Brecht se soma aos dois, propondo uma estética dialética, onde a realidade seja o elemento temático. “Está na hora de se começar a deduzir a dialética da realidade, em vez de deduzi-la da história das ideias”, queria o poeta e dramaturgo alemão, indo além de Hegel e Marx. Para o futuro do teatro, o rumo que apontava era que fosse para as periferias das cidades, ao encontro das pessoas, de modo que elas pudessem “divertir-se produtivamente com a solução de seus próprios problemas”, munidas dos instrumentais do teatro.

Assim como Brecht queria seu teatro, Paulo Freire queria a educação como ação libertadora, sobre um contexto que é histórico. Nesse movimento de leitura libertária do mundo é que via que deveriam nascer os temas geradores envolvidos na prática educativa, emergindo na produção de conhecimento as percepções sobre a realidade, que se expressam no “pensamento-linguagem”, Paulo Freire queria em educação “o esforço de propor aos indivíduos dimensões significativas de sua realidade, cuja análise crítica lhes possibilite reconhecer a interação de suas partes”, formando uma visão totalizante do contexto. Brecht recomendava ao teatro e à representação de seus atores que promovessem um “ajuntamento cuidadoso” da realidade, contra visões mesquinhas e uniformes. A questão central, no dramaturgo e no educador, é uma só: compreender é clarear e fazer história!