BRECHT, PERSONAGEM E APRENDIZAGEM EMVIDA DE GALILEU

A primeira versão de Vida de Galileu foi escrita por Brecht ao final de 1938, período do exílio do poeta e dramaturgo na Dinamarca. Em 23 de novembro, ele registra no Diário de Trabalho:

Concluída a Vida de Galileu. Me tomou três semanas. As únicas dificuldades surgiram com a última cena. Como no caso de Santa Joana, tive no final que me valer de um estratagema para que o público tivesse o necessário distanciamento. Mesmo alguém dado a manifestações de empatia deve agora sentir o efeito-distaciamento quando é levado a senti-la com Galileu. Com apresentação rigorosamente épica ocorre uma empatia aceitável.”

Em verdade, o receio da empatia do público com Galileu, que Brecht queria evitar, não se encerrou ali e perseguiu-o por longo tempo, levando a adaptações na peça. Em fevereiro do ano seguinte, escreve que Galileu é “tecnicamente um passo atrás” e que a peça precisava ser reescrita, no sentido de reforçar que aquele era um momento de aurora da ciência e não cabia a empatia com a figura do grande físico, que a negou ao abjurar suas descobertas, quando faria a diferença ter resistido.

Em 1945, vivendo exilado nos EUA, Brecht fez parceria com o renomado ator Charles Laughton para uma montagem da Vida de Galileu, que seria apresentada em Los Angeles em 1947, e logo depois, no mesmo ano, em Nova York, tendo Laughton no papel título. Brecht e Laughton fizeram, então, uma imersão no personagem, que rendeu muitas linhas no Diário de Trabalho e um texto-comentário de Brecht sobre a construção da peça e o trabalho reflexivo com Laughton.

Em 10 de outubro de 1945, Brecht escreve no diário sobre o instinto teatral do renomado ator, que febrilmente pensava como representar Galileu: “Laughton está inteiramente disposto a atirar seu personagem aos lobos. Ele tem em mente uma espécie de Lúcifer, em quem o autodesprezo se transformou num tipo de orgulho vazio”.

É possível sentir a satisfação do dramaturgo nessas observações, certamente por ter encontrado um parceiro que dava vazão a seus próprios pontos de vista sobre Galileu. A versão resultante do trabalho dos dois é concluída em 1º de dezembro de 1945 e no Diário Brecht inclui um prólogo para aviso ao público antes da peça começar. Tudo é apresentado como de fato sempre foi: antes de qualquer coisa, uma questão decisiva:

Respeitável público da Rua Larga: / Nós o convidamos a subir a bordo / De um mundo de curvas e medidas / Onde conhecerá no berço da física. /Verá a vida do grande Galileu Galilei, / A lei da gravidade versus a gratias Dei, / A luta da ciência com a autoridade / No limiar de um novo tempo. / Verá a jovem ciência em flor / E verá seu pecado original. / Como precisa comer, ela se prosterna, / Segue o mau caminho, é violada. / Antes mestra da Natureza, agora é só / Outra puta banal, venal. / A verdade não é ainda mercadoria / Mas já tem a singularidade / De não ser acessível a muitos / E lhes tornar a vida penosa, não leve, / Um tal saber é atual, / O Novo Tempo passa bem depressa. / Do público esperamos atenção / Não para nós, para nosso tema, antes que / Por não ter sido aprendida a lição / Entre em cena a bomba atômica em pessoa.

Em “Vida de Galileu”, toda inquietação que Brecht carregou consigo por anos em torno da dramaturgia e da encenação mobilizou uma ciência estética.  A peça, como nenhuma outra do dramaturgo, tem perspectiva polifônica – a do poder religioso; a do cientista inquieto; a do cientista amedrontado e conformado; a da criança curiosa; a dos populares inquietos; a dos populares temerosos; a dos religiosos conservadores; a dos religiosos abertos ao novo. Em todos os momentos e personagens, ela é permeada de tensão, medos e erros, uma humanização e terrenalidade que define sua riqueza.

Dois momentos muito decisivos na peça envolvem a saga de Galileu. O primeiro deles quando o físico finalmente cai nas mãos da inquisição. Apontam-lhe os instrumentos de tortura e lhe dão a opção de renegar sua ciência e descobertas, ou enfrentar o suplício. Galileu, amante da ciência, mas também da vida (e da boa vida), abjura. Ao voltar para junto de seus discípulos, encontra-os decepcionados, em especial Andrea Sarti, que o acompanhara desde criança. Ao vê-lo, Andrea dá sua sentença, aos gritos: “- Infeliz da terra que não tem heróis!”.  Ao que um Galileu cabisbaixo responde: “- Não. Infeliz da terra que precisa de heróis.”

O segundo momento se passa 30 anos mais tarde, quando Andrea, de ida da Itália para a Holanda em busca de liberdade de pesquisa, resolve visitar e despedir-se do mestre, desde então prisioneiro da igreja. Andrea ouve de Galileu que ele, secretamente, continuara suas pesquisas. Galileu entrega-lhe os manuscritos dos Diálogos sobre a mecânica, para que os leve consigo e consiga publicá-los. Nesse momento Andrea toma consciência de que, preservando sua vida, Galileu preservara também sua ciência. Arrepende-se de ter censurado o mestre, mas Galileu o lembra que havia renegado a ciência por covardia, medo da dor. E Andrea afirma que o mais importante, ao fim das contas, é a contribuição científica.

Galileu faz então um longo discurso final, de onde tiro um trecho:

Eu sustento que a única finalidade da ciência está em aliviar a canseira da existência humana. E se os cientistas, intimidados pela prepotência dos poderosos, acham que basta amontoar saber, por amor ao saber, a ciência pode ser transformada num aleijão, e suas novas máquinas serão novas aflições, nada mais. Com o tempo é possível que vocês descubram tudo que haja por descobrir, e ainda assim o seu avanço será apenas um avanço para longe da humanidade.”

Para Brecht, Galileu precisava ser visto com distanciamento. O momento de sua vida era uma janela para uma possível mudança cultural, onde a população se libertasse dos dogmas que a mantinham explorada, submissa. Galileu era respeitado, era popular. Sua descoberta astronômica repercutira. Se mantivesse sua posição, colocaria o poder da igreja diante de uma decisão difícil, de ter que queimá-lo ou aceitar a verdade que anunciava. Vale lembrar que a Igreja só reconheceu seu erro em relação a Galileu 500 anos depois. Portanto, a composição da personagem do físico trazia essa questão: deveria ser uma aprendizagem sobre as encruzilhadas da história.

O sociolinguísta Bakthin lembrou que nas ciências humanas não se pode conhecer os sujeitos tratando-os como objetos, como coisas, como se fossem mudos de voz e vontades. Na vida social, compreender é conviver com os falantes e os contextos do mundo. Brecht viu no teatro a ciência de uma dialética da realidade, do diálogo conflituoso dos pontos de vista, onde a arte se faz no dispor perspectivas em conflito, não ausentando o olhar e a perspectiva do próprio autor, que se torna o ajuntador cuidadoso de um todo.

É muito interessante constatar que em “Vida de Galileu” Brecht provoca, sem qualquer anúncio disso, um abalo na estrutura das ciências. Enquanto culturalmente se considera ciências como a matemática, a física, a engenharia, como “exatas”, “mensuráveis”, “neutras” metodologicamente, e as ciências humanas como “relativas” e “instáveis”, Brecht mostra o quanto de humana, relativa e falível pode ser uma ciência “exata”, considerando os paradigmas e dogmas que permeiam a sociedade. Ao final das contas, todas as ciências “sofrem” dessa humanidade.

Como lembrou Bakhtin sobre as ciências humanas, todo pensamento é sobre o mundo e está no mundo, participa dele. Essa participação é inconclusa, é política e histórica. O que torna as coisas claras é a consciência disso e não o contrário. É o que Brecht mostra em seu Galileu.