BRECHT E A CIÊNCIA DA CENA

Da palestra que ministrei no 16º Festival Literário de Londrina – Londrix, “Literatura, ciência e aprendizagem em Brecht“, me propus a publicar três textos aqui no LUMINARES, desdobrando e aprofundando um tema hoje tão importante, dado o obscurantismo reinante. Apresento aqui o segundo artigo da trilogia, focando Brecht e a ciência.

Ler atentamente o Diário de Trabalho de Brecht é acompanhar sua cabeça pensando os desafios mais decisivos da arte e da estética na turbulência daquele tempo. O Diário, que cobre o período de 1938 até 1947, vai registrando suas passagens no exílio de país em país – Dinamarca, Suécia, Finlândia, EUA – e suas inquietações com a guerra, a ascensão nazista e o papel que atribui à arte num mundo em transformação acelerada e caminhos desumanizadores.

Brecht sentia e vivia o exílio como um artista criador e um pensador intenso, que chamava à reflexão em tudo que fazia. Um dos debates da época era como a arte deveria tratar o ambiente de terror nazista e de guerra. Brecht não queria traduzi-lo, queria “um enfrentamento com a realidade, mais precisamente com a condição desumanizada” (anotações de julho de 1938).

Aborrecia a ele que os intelectuais alemães pensassem sem paixão e sensualidade, sem o “cheiro dos barrís de vinho”: não queria uma literatura e uma dramaturgia onde as personagens fugissem da mundanidade: “Nossos heróis cultivam a sociabilidade, mas não comem; nossas mulheres têm sentimentos, mas não têm nádegas”, ironizava (Diário, 12 de agosto da 1938).

Ainda há riqueza, uma rica seleção de campos de batalha. Há originalidade, originalidade de problemas” (10/09/38), provocava Brecht, convocando uma chave de leitura e criação que considerava a única capaz de dar conta do recado na realidade em parafuso: o pensar dialético. “A luta de classes intensificada, a exploração irrestrita, a acumulação de miséria mediante a acumulação de capital, tudo isso significa que a dialética se torna cada vez mais o único auxílio possível à orientação”.

Mas não qualquer dialética, porém. Há uma originalidade na dialética de Brecht, que está relacionada ao trato artístico, a angulação estética. Essa é uma dimensão ainda pouco explorada de sua contribuição. Brecht dizia em seu diário que a dialética de Hegel “não emana da história real, mas da história da filosofia”. Em Marx, assume o componente de uma visão de mundo, “mas não é vista funcionando” (29/01/40).

O que queria Brecht? “Está na hora de se começar a deduzir a dialética da realidade, em vez de deduzi-la da história das ideias, de usar exclusivamente exemplos selecionados da realidade”.

Considero que essa passagem, com o poeta-dramaturgo pensando alto em seu diário de trabalho, dá a dimensão da importância que via em si mesmo: a de alguém que desenvolvia uma dialética própria e vital. As observações que se tem sobre ele de outras pessoas não raro relatam alguém de personalidade marcante, que gostava de exibir seus pensamentos, ao mesmo tempo que não tinha muitos freios ao desdenhar de outros pensadores que considerasse equivocados. Acho interessante, não obstante, olhar Brecht não como um egocêntrico, mas como um pensador diferenciado.

Em 15 de março de 1942, exilado nos EUA, ele relata no diário um encontro na noite anterior, com uma importante atriz, que considerava “a mais bem sucedida do teatro reinante”, e de quem queria ouvir a impressão sobre suas peças. Comenta a dificuldade da atriz em perceber sua estética teatral: “O principal obstáculo reside no fato de que ela não vê a plateia como um conjunto de pessoas que desejam mudar o mundo, escutando um informe sobre o mundo. Assim, o tom básico desse tipo de teatro lhe é estranho, o gesto de começar, o entusiasmo por um novo milênio, a paixão pela pesquisa, a vontade de desencadear a criatividade de todos. Ela vê a coisa como um novo ‘estilo’, uma questão de moda, um capricho…”. A descrição elucida bem o modo como Brecht vê seu teatro.

A dialética da realidade que vislumbrou demoliu o realismo como o viam os realistas. Sua crítica íntima, nos diários, era implacável com eles: “Assim, o que é a arte realista, digamos no teatro? Ilusionismo? Sensualismo? Tudo em prosa coloquial, com atmosfera, tão impenetrável como a própria vida? Feita tão plausivelmente que ficamos com a impressão de que as coisas são assim e só podem ser assim? E o homem é sempre vítima das condições, do clima, da propriedade, da paixão, do modo de ser das coisas? Nesse caso, a verdade está sempre ali em alguma parte, mas ninguém pode chegar até ela”. Para Brecht, a arte realista que interessa “é a arte que contrapõe a realidade às ideologias e torna possível sentir, pensar e agir de maneira realista” (17/10/1943).

Estamos, portanto, falando de arte e de realidade numa ótica dialética, dentro de um período conturbado da humanidade. Brecht via sua época “marcada pelo tremendo abismo entre arte e vida, de tal modo que há pouca arte na vida e pouca vida na arte. Não há nada natural na arte quando a vida é algo artificial” (01/11/1943).

As afirmações de Brecht sobre o abismo entre arte e a vida não compõem frases “bem-postas”, dessas que se coleciona para citar em redes sociais impunemente. Diante de indagações de colegas intelectuais e muitos companheiros de exílio sobre a adesão dos alemães ao nazismo e a seu exército, Brecht lembrava-os tratar-se de um exército formado como uma maquinaria desumanizadora: “Com a mecanização, o estado-maior alemão libertou-se das qualidades pessoais de seus soldados, do “espírito das tropas”. O soldado agora faz parte dos armamentos. As máquinas ‘levam-no consigo’. A pontualidade de uma operação não é garantida pelo senso de responsabilidade, mas por um cronômetro. As máquinas têm de ser incansáveis. Paraquedistas são lançados como bombas e bombas não precisam de coragem. A coisa que precisaria de coragem seria recusar-se a subir no avião em primeiro lugar. Expostos atrás das linhas inimigas, eles têm que lutar pela própria vida, não pelo ‘futuro da Alemanha’. O espírito necessário para isto pode ser adquirido diariamente na indústria” (03/06/1940).

O PÚBLICO DE UMA ERA CIENTÍFICA

Entre os escritos conceituais de Brecht, os “Estudos sobre teatro” (Editora Nova Fronteira) estão entre os mais importantes. E Brecht os inicia dizendo que numa época de ciência o ser humano não pode ser apresentado ao ser humano como vítima. Ao público de uma época de ciência deve corresponder uma arte cheia da ciência da arte.

Vivemos em uma época de ciência e numa época assim a descrição do mundo deve mostrá-lo passível de modificação, pensou Brecht. Esse se tornou seu desafio estético, ou seja, a estética brechtiana significa seleção, angulação e favorecimento da visão do público.

Brecht considerava o teatro, essencialmente, um lugar de diversão, do que dependia seu tratamento estético. “- Como assim?”, alguém pode se perguntar. Como um teatro que se propõe abordar tão criticamente as coisas do mundo, numa época de catástrofe, pode ter a diversão como principal horizonte? De novo, entra em cena a dialética brechtiana: “Analisemos, pois, qual a forma de diversão que mais nos agrada.”

O teatro precisa continuar a ser algo absolutamente supérfluo, o que significa, evidentemente, que vivemos para o supérfluo”, diz Brecht no Pequeno órganon para o teatro”, provavelmente seu mais importante texto reflexivo sobre teatro. É no que a visão dominante e racionalista da produção capitalista considera supérfluo que está o que “é suscetível de causar prazer aos sentidos”.

Os prazerem em que Brecht aposta são aqueles que unem a ciência e a arte: facilitar a vida, papel da ciência, e proporcionar diversão, papel da arte. Desenvolver uma produtividade neste sentido é um dos primeiros grandes prazeres que vislumbra. O segundo está intimamente ligado ao primeiro: a satisfação de descobrir, de entender, de estar a par e em condições de atuar no contexto da comunidade, da política e da história.

HISTORICIZAR

Brecht aposta na “possibilidade de uma aprendizagem divertida”, a forma que o teatro tem de ensinar. E há um elemento estético decisivo nesta abordagem: a capacidade de historicizar, de configurar na imagem (na cena), a contradição histórica em que se encontra a personagem. “A imagem de perspectivação histórica será como que um esboço, pois em torno da figura em destaque indicará outros movimentos e outros traços”.

O elemento de historicização é geralmente o que torna estranho e espantoso algo que seria considerado normal, trivial, familiar e natural. O que a cena historicizante e dialética vislumbrada por Brecht quer provocar é tornar as condições históricas condições presentes, não mais poderes obscuros ou decorrências naturais, mas situações criadas e reproduzidas pelas pessoas nas condições sociais e históricas, que podem ser diversas, levando a desfechos diversos, não ao modo liberal, mas com clareza para aquilo que emancipa e faz justiça.

Suponhamos que havia a representar grandes paixões ou acontecimentos, desses que influenciam o destino dos povos. O instinto do Poder, por exemplo, surge-nos hoje em dia como uma grande paixão. Supondo-se que um poeta “sentia” esse instinto, supondo que que pretendia mostrar-nos alguém que ambicionasse o Poder – como poderá esse poeta conhecer o complicado mecanismo exterior dentro do qual se luta, hoje, pelo Poder? Se o herói que nos propõe é um político, como se faz, hoje, a política? Se é um homem de negócios, como se faz, hoje, os negócios?

Brecht pede essa cuidadosa pesquisa, e pede mais: que ela não seja algo como uma pesquisa sociológica, mas uma pesquisa artística, guiada pela e para a finalidade maior que via na arte: mostrar.