A ESTÉTICA LITERÁRIA EM BRECHT

Participei, com muito gosto, do Festival Literário de Londrina – Londrix, 16ª edição, dia 16 de março, ministrando a palestra Literatura, ciência e aprendizagem em Brecht. Tenho estudado Bertolt Brecht desde a década de 1980. Ele, um dos maiores poetas e dramaturgos do Século XX, pelos atributos de sua estética será um dos iluminadores do Século XXI.

Vou compartilhar no LUMINARES as pesquisas e os apontamentos que fiz para a palestra. Como o assunto é oceânico, vou apresentá-lo em uma sequência de três textos. O primeiro sobre a literatura e a estética literária de Brecht. O segundo sobre a original relação entre sua estética, a ciência e o conhecimento. O terceiro será sobre a aprendizagem, a pedagogia e a didática em Brecht.

Bertolt Brecht foi reconhecido “no tempo que sobre a terra lhe foi dado” – parafraseando um de seus poemas – como um dos grandes poetas da Alemanha. Começou a publicar aos 15 anos e aos 17 sua poesia mostrava ironia incisiva, especialmente em relação ao contexto da primeira grande guerra, que então eclodiu.

Aos 18 anos, estudando medicina em Munique, foi convocado para servir num hospital militar como enfermeiro. Naquele cenário escreveu a “Balada do soldado morto”, que tivemos privilégio de conhecer no Brasil por uma tradução de Cacá Rosset, cantada por Cida Moreira:

Durava mais de seis anos a guerra / E a paz não apareceu / Então o soldado se decidiu / E como um herói morreu / Mas como a guerra não terminou / O rei vendo o soldado morto / Ficou triste e pensou assim: / Morreu antes do fim. / O sol esquentava o cemitério / E o soldado jazia em paz / Até que uma noite chegou ao front / Um médico militar / Tiraram o soldado da cova / Ou o que dele sobrou / E o médico disse / “Tá bom pro serviço, ainda tem muito pra dar!” / Saíram dali levando o soldado / Que já apodrecia / Rezavam em seus braços duas freiras / E uma puta vadia / E como o soldado cheirava a morte / Um padre ia na frente do andor / Perfumando a cidade de incenso / Para encobrir o fedor (…)

O filósofo e escritor brasileiro Leandro Konder vê que Brecht, nos primeiros tempos de sua poesia, queria mostrar a dureza do quadro onde vidas e cidades podiam ser arrastadas e arrasadas, e recusava-se a embelezar essa realidade, o que tinha como contrabalança a convicção na força humana, capaz de viver e agir na escuridão, na podridão, no beco sem saída e diante do inevitável da morte.

HANNAH ARENDT, SOBRE BRECHT: UMA PECULIAR PAIXÃO PELA VIDA

Hannah Arendt, contemporânea do poeta, definiu sua literatura como “uma inteligência penetrante, não retórica, não contemplativa, que ia ao centro do assunto” quando se tratava de revelar os comportamentos e interesses em torno dos acontecimentos.

Para Arendt, o olhar de Brecht era atraído pelas “tempestades que varreram consigo os traços humanos, tudo a que alguém poderia se agarrar, inclusive objetos culturais e valores morais”, o que não resultou nele em pessimismo ou derrota, mas numa peculiar paixão pela vida, pela simplicidade e terrenalidade das coisas.

No ambiente após a primeira grande guerra, o mundo para Brecht transpirava “um frescor infantil e terrível”, na visão da filósofa. Arendt reforça que a literatura de Brecht vagueou com estranha leveza pela ambiência tumultuada das cidades e da guerra, porque para ele “nada é maior que a vida e nada mais nos foi dado”.

WALTER BENJAMIN: BRECHT FEZ A LITERATURA DO GESTO

Walter Benjamin, amigo de Brecht e hoje tido como um dos mais importantes críticos literários, via que a literatura brechtiana se ocupava em ser estratégica para a visão do público. O teatro épico brechtiano buscou alterar fundamentalmente as relações entre palco e público, de modo que a encenação no palco deixasse de ser “espaço mágico da arte” para ser uma sala de exposição, com situações dispostas em ângulo favorável.

O público não deveria mais ser seduzido, mas tornado uma assembleia de pessoas interessadas, que iriam então refletir sobre o disposto em cena. É um esforço por interessar as pessoas como especialistas, e não através da “cultura” que se acomoda com o entreter-se para ver o passar do tempo e acumular conhecimento sem importar-se com a vida social.

Brecht comparava o seu público de especialistas ao público dos esportes, que conhece, por exemplo, os times de futebol, cada um de seus componentes, com suas qualidades técnicas, possíveis atitudes e defeitos; seus treinadores e a situação financeira dos clubes. Um público que antevê situações e vislumbra desfechos possíveis. Benjamin viu que o teatro épico conserva do fato de ser teatro uma consciência incessante, viva e produtiva, que ordena experimentalmente os elementos da realidade.

O Teatro épico é gestual, observou Benjamim. Em face das assertivas e declarações fraudulentas dos indivíduos, e da ambiguidade e falta de transparência de suas ações, Brecht trabalhou com o gesto, que é pouco falsificável.

O próprio Brecht definiu a relação de sua estética com o gesto, em seus Estudos sobre Teatro, ao lembrar que entendia por gestos muito mais que movimentos de mãos para sublinhar, destacar ou indicar, mas “atitudes globais. Toda a linguagem que se apoia no ‘gesto’, que mostra determinadas atitudes da pessoa que fala em relação às outras, é uma linguagem-gesto”. O dramaturgo deu nome a esse gesto “significativo para a sociedade, que permite tirar conclusões que se apliquem às condições dessa sociedade”: gestus social.

BRECHT SUPÕE CONTINUAMENTE A HISTÓRIA, DIZ BARTHES

O crítico cultural francês Roland Barthes tem Brecht com uma de suas principais influências. Foi Barthes quem me levou a Brecht quando li, em meados da década de 1980, um pequeno texto no livro Crítica e Verdade. Trata-se de um escrito de Barthes de 1954, por ocasião de uma apresentação em Paris da peça Mãe Coragem pelo Berliner Ensemble, o grupo fundado por Brecht.

Barthes afirma: “Mutter Courage é uma obra totalmente popular, porque é uma obra cujo desígnio profundo só pode ser compreendido pelo povo”. A frase é aparentemente antitética e contraditória, já que o senso comum volta e meia vê o povo como ignorante. Me senti imediatamente atraído pela perspectiva de que só o povo pudesse compreendê-la profundamente: no entendê-la estava o desenrolar da história, não a da peça, mas a do povo.

Barthes explica que Brecht faz um jogo de dupla visão na peça: a do mal social e a de seus remédios. O público vê a cegueira social da Mãe, comerciando no cenário da guerra. Vê os passos de sua falsa esperteza, no fundo está embaralhada, e ao perceber isso o público adquire um saber sobre e para si mesmo.

Num outro texto, Brecht, Marx e a História, Barthes volta a essa angulação sobre Brecht, considerando que entre a explicação e a expressão da alienação humana, Brecht desenvolve um plano intermediário, o de uma problemática da lucidez: nem teatro de história, nem teatro de ação, sua obra supõe continuamente a História, que explica na cena, e a ação, que ao se desenrolar, desaliena.

São questões de política, alerta Barthes, pois diante do ambiente da política, ou se é sujeito, ou se é objeto dela, e não há meio termo. Ou somos conscientes da política, ou sacrificados por ela. E não que se possa escolher sempre, mas a questão é perceber-se ou não no andar da carruagem. Brecht trata dessa percepção quando demonstra, na dramaturgia, a ausência dela nas ações das personagens.

O MODO SUBJUNTIVO, PARA UM PÚBLICO ATIVO

Outro que tratou da peculiaridade da estética brechtiana foi Raymond Williams, pensador do campo dos Estudos Culturais. Para ele o que distingue Brecht é ter criado uma forma dramática onde o realismo deixou o modo indicativo para lançar mão de um modo subjuntivo.

Enquanto o modo indicativo fixa “É assim!”, consagrando uma realidade estática, o modo subjuntivo de Brecht mostra: “Poderia ser assim!”, ativando no público expectador ou leitor um raciocínio sobre o devir histórico como algo mutável, de desfechos possíveis. Williams lembra o exemplo de Terror e Miséria no Terceiro Reich onde uma cena é apresentada com dois desfechos possíveis, dependendo das atitudes.

A peça “Vida de Galileu” é outro exemplo desse tratamento subjuntivo. Brecht reescreveu e readequou várias vezes a peça. No Diário de Trabalho mostra-se inquieto com o personagem Galileu, por não querer que o público o visse como herói, sem ver sua vacilação como protagonista da difusão científica. Na escrita brechtiana, o desdobramento possível está sempre em questão. É uma das mais refinadas formas de dialogismo, mirando um público ativo.

BRECHT TEM LADO

A estética de Brecht é de crença no ser humano e tem lado: o dos oprimidos. Mas não se trata de uma crença romantizada. Ao contrário, parte das mais tristes constatações, como a adesão popular ao nazismo, para propor uma visão consciente. Em um de seus poemas que empresta a forma da fábula, o cavalo Falladah, no ambiente de fome, é esfolado vivo e dividido pela população faminta.  Em seus últimos pensamentos reflete sobre o comportamento do povo:

Mas eu os conhecia de antes, o povo! / Sacos para me proteger das moscas me traziam / Davam-me pão de ontem, e ao cocheiro diziam / Que me tratasse bem, davam-lhe conselhos. / Antes tão amigáveis, tão hostís hoje! / De repente assim mudados! Ah, o que aconteceu / com eles? / Então me perguntei: Que frieza / Deve ter se apossado dessa gente! / Quem os trata tão malevolente / Que cada um se torne assim desprezível? / Ajudem-nos, portanto! E o façam com presteza! / Senão lhes acontecerá algo que os senhores / não julgam possível!

(Trecho do poema “Ó Falladah, aí estás pendurado!” – Tradução de Paulo Cesar Souza)

Brecht tem questões a serem respondidas, não como coisas que o atormentam de forma pessoal, mas dúvidas pertinentes a todos, especialmente quem se descontenta. O Brecht da maturidade poética e estética (dos escritos entre 1938 e 1941) reflete sobre a possibilidade de que as coisas mudem e conclui:

Todos os que meditaram sobre o mau estado das coisas recusam-se a apelar à compaixão de uns por outros. Mas a compaixão dos oprimidos pelos oprimidos é indispensável. Ela é a esperança do mundo.(Trecho do poema “A esperança do mundo” – Tradução de Paulo Cesar Souza)

Algumas sugestões de leitura:

Bertolt Brecht, por Hannah Arendt, no livro Homens em tempos sombrios, Editora Companhia das Letras.

Que é o teatro épico? Um estudo sobre Brecht, de Walter Benjamin, no livro Walter Benjamin – Obras escolhidas – Magia e técnica, arte e política, Editora Brasiliense.

Mãe Coragem Cega, de Roland Barthes, no livro Crítica e Verdade, Editora Perspectiva.

Pequeno órganon para o teatro, de Bertolt Brecht, no livro Estudos sobre teatro, Editora Nova Fronteira.

Brecht Poemas 1913 – 1956, Editora Brasiliense.