OFICINAS: LUGAR DO FAZER PENSADO COM PRAZER

O que são oficinas culturais?

Quem é do meio artístico – ou de alguma maneira está próximo – certamente já comentou sobre uma oficina cultural, participou, acompanhou ou protagonizou uma delas. São geralmente desejadas e bem quistas, mas nem sempre percebidas no tamanho de sua importância.

Como definimos uma oficina cultural? Que valor e que lugar lhes atribuímos ao pensar em políticas culturais?

Vou dedicar uma sequência de artigos aqui no Luminares às oficinas, com histórias interessantes em torno delas e de como são abordadas por destacados pensadores da arte, da cultura e da estética.

Esse tema, claro, merece uma pesquisa exaustiva, com coleta sistematizada de materiais e referências, como pede uma metodologia científica. Minha escolha aqui não tem esse alcance, mas é também importante.

Uso o modo do jornalismo, buscando referências representativas para a atualidade, querendo apontar a relevância do assunto. Pratico um jornalismo abertamente interpretativo, referenciado nos Estudos Culturais como campo de conhecimento.

O MODUS DO ARTÍFICE

A cidade de Chicago, EUA, parece ser mesmo uma referência norte americana em termos de lutas dos trabalhadores e trabalhadoras, bem como do pensamento em favor das lutas sociais. O sociólogo do trabalho e historiador Richard Sennett é um enfático exemplo em favor dessa impressão.

Nascido em 1943, Sennett é professor da London School of Economics e da Universidade de Nova York, músico e autor de importantes reflexões sobre o  trabalho na atualidade. Entre seus muitos livros publicados, destacam-se “O Declínio do Homem Público: as tiranias da intimidade”, “A corrosão do caráter: conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo”, “Carne e pedra: o corpo e a cidade na civilizaçao ocidental”, “A Cultura do novo capitalismo” e uma obra sobre a qual nos deteremos aqui, nessa reflexão sobre oficinas culturais: “O Artífice”.

Sennett é um observador cuidadoso da vida social e das formas do trabalho, que procura, segundo suas próprias palavras, “enxergar com os olhos”, sem excessivas especulações imaginárias. Para ele, enquanto o capitalismo se apropria do trabalho e também dos entendimentos sobre o trabalho, artistas questionam os modos como se apresenta o real e apresentam novas dimensões dos fazeres.

A oficina é a casa do artífice”, diz Richard Sennett, em “O Artífice”, instigante estudo sobre a criatividade, a inventividade e o pensamento elaborador presentes na artesania dos trabalhos que ele classifica como “de artífices”.

Nesse estudo fundamental, o sociólogo lança seus olhares cuidadosos sobre o trabalho com fortes componentes criativos, desde a idade média, como os dos artesãos de sapatos e de roupas, os ourives e os fabricantes de instrumentos musicais, entre eles o famoso Antonio Stradivari e sua luthieria, buscando os componentes comuns do trabalho do artífice, que ele identifica como presentes também no mundo contemporâneo, em laboratórios diversos, na criação das tecnologias da informação, na química, na atividade artística, etc.

O que dele destaco aqui é que considera tais trabalhos não como fruto de talentos inatos ou especialidades de iluminados, mas habilidade artesanal-pensamental, desenvolvida a partir de “um impulso humano básico e permanente, o desejo de um trabalho benfeito”.

Sennett viu, na busca de soluções para qualificar o produto da criação, o desejo como modus com que o Artífice pensa e resolve em seu trabalho, seja um sapateiro, um decorador, um músico, um ator, um criador de aplicativos, etc.

Em Sennett, percebemos a oficina como “casa do artífice”, lugar de aprendizagem onde se vinculam o empenho de aprender, o desejo de bem criar e a disposição de experimentar, errando, corrigindo, acertando e crescendo em consciência nesse fazimento.

A instrução ou condução da aprendizagem na oficina, diz Sennett, liga-se a figura do “mestre”, aquele que “mostra” formas do fazer, ao invés de uma instrução verbal, limitada ao dizer. Vale comentar, comparativamente, o modo de aprendizagem que Sennett vê nas oficinas e as alegorias usadas pelo crítico cultural Roland Barthes para comentar práticas de educação. Barthes diz que, ao contrário do “ensino”, onde o saber é transmitido pelo discurso oral ou escrito, a “aprendizagem” liga-se à figura oriental do “mestre” que transmite no fazer as possibilidades e competências, para aprendizes em processo criativo.

Uma última analogia interessante de Sennett sobre o artífice e a oficina é feita em relação à infância e os jogos e brincadeiras das crianças. Nos jogos, as crianças aprendem regras, limites e experimentam as coisas do mundo. São modus, portanto, que todas as pessoas que tiveram oportunidade de ser crianças carregam consigo, relacionando prazer, descobrir e fazer, e que as oficinas recuperam e alimentam.

Quando observamos o desenvolvimento de uma oficina artística, seja de iniciação ou de aprofundamento, podemos descrever várias e ricas formas pedagógicas estimulantes da criação, que são seus tesouros, por enquanto ainda muito escondidos dos olhos do mundo, na proporção exata em que o viver criativo é sonegado às populações.

Nesse contexto, é muito importante nos apropriarmos desse modus indicado por Sennett. Ele nos ajuda em pelo menos dois passos fundamentais: 1) em compreender que o potencial de uma oficina é tanto maior quanto mais consciência tivermos delas como ambiente de criação pensada; 2) em entender que seus potenciais se aplicam às pessoas em geral, como elemento de qualificação da vida de todos.