CHOMSKY E UM OUTRO MUNDO POSSÍVEL

Noam Chomsky, aos 92 anos, é um comentarista dos mais influentes sobre as mazelas do mundo e a crise da pandemia, que ele toma como um conjunto que forma “um momento único na história da humanidade, não só em minha vida. Nunca houve um momento em que tenha surgido tal confluência de crises e as decisões devem ser tomadas muito rápido, não podem esperar”.

Linguista, filósofo, sociólogo e cientista cognitivo. Mas sobretudo Chomsky é o que Bertolt Brecht provavelmente definiria como um ajuntador cuidadoso, pois seus escritos e palestras são recortes e pinçadas que retiram do conjunto dos acontecimentos o que precisa ser demonstrado, com grande cuidado e talento analítico.

Uma das coisas que Chomsky tem se empenhado em demonstrar é que, antes da pandemia do Coronavírus, os cientistas já haviam alertado para os riscos de que ela viesse, conhecendo outros casos de SARS que não se espalharam tanto, mas sinalizaram o perigo. “Tínhamos que nos preparar e sabíamos como fazer: isolar vírus, planejar como desenvolver uma vacina, fortalecer um sistema de prevenção de pandemia. Tudo está bastante claro. Mas não basta ter a informação, alguém tem que fazer. As grandes empresas farmacêuticas têm os recursos, os laboratórios, etc. Não fazem isso, no entanto, porque existe algo chamado Capitalismo”.

O neoliberalismo, para o filósofo-ativista, tende a relevar os cuidados humanos e sociais e levar a estados  autoritários e repressores, como no governo Trump, nos EUA, e Bolsonaro, no Brasil. O que vai ser do mundo depende de como a população mundial e a juventude vão reagir a tudo isso, mas fica claro que estamos em crises existenciais, não enquanto pessoas individualmente, mas em escala coletiva e global, com riscos de catástrofe ambiental, nuclear e de deterioração da democracia, seguidamente ameaçando a existência.

Um dos grandes méritos de Chomsky é limpar a realidade social e os acontecimentos políticos mais relevantes das maquiagens que são produzidas sobre eles pelos interesses econômicos e de estado predominantes. Ele fala dessa realidade e desses interesses do epicentro dominante mundial, os EUA. Não é à toa que, sendo americano, Chomsky é taxado de “antiamericano” em seu próprio país.

Em vez de falar sobre a última guerra, permitam-me que fale sobre a próxima, porque mais vale às vezes estar preparado do que simplesmente reagir”. Assim Chomsky inicia, a título de exemplo, uma reflexão de que sucessivos ocupantes do poder nos EUA, não tendo interesse de atacar de frente problemas graves de saúde, educação, desemprego, falta de moradia e criminalidade, acabam por inflar e “construir” inimigos externos, a partir dos quais fogem de suas responsabilidades sociais. Donald Trump é um exemplo recente, com sua versão de que o vírus seria uma conspiração chinesa, que ele espalhava enquanto ignorava as medidas necessárias contra a pandemia.

Para esse pensador enfático, os intelectuais têm responsabilidade diante dos cenários de maquiagem, acobertamento e desvio das atenções. “Os intelectuais são geralmente privilegiados; o privilégio enseja oportunidades, e a oportunidade confere reponsabilidades. Um indivíduo tem, então, escolhas”, ele raciocina. Os privilégios a que Chomky se refere são condições de percepção, de análise e uso da palavra, que trazem a oportunidade de contestar os poderosos, o que é ao mesmo tempo uma responsabilidade.

A ARTE DA COMUNICAÇÃO AUTÊNTICA

Vejo duas coisas que tornam Noam Chomsky importante para se pensar a cultura nos dias correntes.

A primeira é sua diretidade descritiva e analítica. Na peça de Bertolt Brecht, “Vida de Galileu”, diz o físico sobre a maneira de pesquisar: “- Vamos investigar e começar pelo começo: a descrição.” Chomsky, que se auto-define como socialista libertário pela defesa da democracia direta e da auto gestão, escreve sobre o quadro do mundo e a política ao modo do Galileu brechtiano, quando sugere uma descrição investigativa.

Longe de ser um estilo, no sentido de um capricho individual ou um enfeite, sua força descritiva é um processo de interpretação, ao modo das mais genuínas criações artísticas em seu intento de entender o meio e ao mesmo tempo propor melhorar a condição de viver nele. Não é uma maneira de falar de algo conhecido, mas uma maneira de ver e tornar possível ver os acontecimentos e o mundo, fora da maquiagem dos grandes interesses.

A segunda importância a destacar é o engajamento na ideia de que “um outro mundo é possível”, mantra do Fórum Social Mundial, em que ele palestra e milita. Em entrevista a Bernarda Llorente, publicada no portal Instituto Humanitas Unisinos em 15 Setembro 2020, diz Chomsky: “É claro que muita coisa pode ser feita, mas barreiras sérias devem ser superadas. A lógica capitalista deve ser superada, a praga neoliberal deve ser superada e a liderança malévola deve ser superada, três barreiras principais. Não será fácil, mas não é impossível”.

O trabalho expositivo e textual de Chomsky é uma arte de observação, percepção comunicação autêntica, como ele mesmo é. Não é a democratização da cultura justamente esse esforço de partilha da percepção e do entendimento, superando os muros dos grandes (e por desventura também dos pequenos) interesses?

MATÉRIAS E ENTREVISTAS CONSULTADAS:

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/602519-temos-pouco-tempo-para-decidir-se-a-vida-humana-sobrevivera-alerta-noam-chomsky

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/06/cultura/1520352987_936609.html

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/602842-estamos-em-meio-a-uma-confluencia-de-crises-existenciais-entrevista-com-noam-chomsky

LIVROS E TEXTOS CONSULTADOS:

– MÍDIA Propaganda política e manipulação. Noam Chomsky. Editora Martins Fontes. 2014.

– Quem manda no mundo? Noam Chomsky. Editora Planeta. 2017.