HABERMAS, CULTURA CONTRAOBSCURIDADE

Aos 91 anos, Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão, participante da Escola de Frankfurt e de sua teoria crítica, é um pensador de referência da atualidade, dedicando-se às relações entre democracia e esfera pública.

À razão instrumental do capitalismo, baseada na combinação da técnica com a dominação social e a sedução consumista, Habermas contrapõe o agir comunicativo, onde interpretação, conhecimento e ação adentrem na interação social.

Para o filósofo, o sistema trabalha na lógica instrumentalizadora da economia e do poder político, objetivando o sucesso dos empreendimentos, enquanto o mundo da vida contrasta com essa funcionalização e se relaciona de outras formas, a partir da linguagem e das interações solidárias, num caminho de comunicação, com mútuo entendimento.

Na instrumentalização, os interesses regem as relações e os ganhos são egocêntricos. No agir comunicativo, são traçados acordos cooperativos e as metas nascem deles e são por eles mediadas. O Mundo da Vida vislumbrado por Habermas corresponde aos contextos variados de ação e interpretação onde se tece a ação comunicativa. Habermas é um dos formuladores do conceito de democracia deliberativa, que investe na capacidade das pessoas em decidir e atuar a partir dos interesses coletivos.

Diante da pandemia, Habermas, aos 91 anos, é uma das principais fontes de reflexão intelectual e um de seus apontamentos, em entrevista publicada pelos jornais Le Monde e La Repubblica, em 12 de abril de 2020, é que “os direitos fundamentais proíbem os órgãos estatais de tomar qualquer decisão que aceite a possibilidade de morte dos indivíduos“. Seu ponto de partida são os parâmetros de razão consolidados na declaração dos direitos humanos.

Habermas considera que a pandemia, no contexto novo de comunicação horizontalizada da internet, está permitindo que todas as pessoas possam conhecer procedimentos que antes ficavam restritos a círculos especializados. “Raramente, o terreno para ação em condições de incertezas foi iluminado de maneira tão vívida. Talvez essa experiência incomum deixe sua marca na consciência da esfera pública”, pondera.

A internet, pensa Habermas, é um grande território de disputa cultural, onde se forma a esfera pública da atualidade. Ela torna-nos, todos, autores potenciais, mas sua presença efetiva na esfera pública tem poucas décadas e não temos ainda uma civilidade conquistada nas redes sociais.

Um dos principais teorizadores sobre a emergência da “nova obscuridade” de direita, associada ao neoliberalismo, Habermas localiza suas origens na década de 1950 em círculos intelectuais, com infiltrações na cotidianidade ao longo dos anos 1970, através da imprensa. Isso que – hoje em dia sabemos – tornou-se uma realidade social presente e agressiva.

O filósofo elucida que a nova obscuridade, ou doutrina neoconservadora, restringe a modernidade ao progresso técnico e ao crescimento capitalista, desejando a dinâmica dos investimentos privados, mas tendo como perigos sociais as mudanças culturais emancipatórias no modo de vida, pleiteando novos direitos.

Propositalmente, os neoconservadores tentam uma inversão: ao invés de localizar a crise social contemporânea “nas coerções econômicas que monetarizam e burocratizam cada vez mais os âmbitos da vida, que transformam cada vez mais as relações em mercadorias e em objetos de administração”, tentam culpar o fantasma de uma cultura subversiva por ela, aponta Habermas.

Neste mesmo movimento, desejam o conhecimento científico usado para o progresso técnico e o planejamento econômico e administrativo, mas se o querem assim encapsulado, não o permitem no terreno das ideias e dos problemas vitais da sociedade.

Os novos obscurantistas são contra o potencial de sensibilização da arte, aponta Habermas, assim como são contra o potencial de esclarecimento da ciência e a ação política que coloca a perspectiva da justiça social e da sociedade desejável. Assustam o conjunto da sociedade professando o risco que estariam correndo os valores da fé e da moral.  São valores  e fé fundamentalistas, ainda que desprovidos de fundamentos, mas que encontram eco no senso comum.

A ARTE GERA A ESFERA PÚBLICA COMUNICATIVA

O pensamento de Habermas nos coloca urgências para a criação cultural e as políticas culturais democráticas, quando elucida que o novo obscurantismo tem como alvos a arte crítica, a ciência compartilhada e a democracia participativa.

Se entendermos a cultura ativa na vida social total e a possibilidade da percepção e criação artística como extensivas a todas as pessoas – como a entendem os Estudos Culturais como campo das ciências humanas – podemos dimensionar nesse momento do mundo a importância que a cultura tem no desenho que fizermos de uma boa política pública.

Precisamos da cultura e da arte como descrição e compartilhamento do mundo, com maneiras críticas e humanizadoras de ver as coisas e de dar caminho a elas. É importante dar relevo aos esforços criativos que aproximam cientistas, artistas e todas as pessoas envolvidas na solidariedade e no bom senso.

O artista não é aquele que está acima dos demais pela capacidade criadora, para daí tornar-se um tipo estranho e distante. Ele é o que experimenta e compartilha novas descrições, experiências e sensibilidades. Ele é o que mostra que democracias são possibilidades de leitura de mundo e liberdade criativa.

As boas políticas culturais serão aquelas que tornarão nossas cidades laboratórios pelos direitos humanos, pelo respeito à diversidade, pela criação, pela expressão, pela comunicação verdadeira, pela quebra do ciclo de ódio obscurantista-conservador, pelo direito à ciência…

Precisamos da ampla circulação da arte, em suas linguagens diversas, pelos lugares todos das cidades. E, sobretudo, de oficinas que apropriem as pessoas da percepção e expressão artística. Artistas são especialmente importantes para criar a esfera pública comunicativa. E todas as comunidades devem ter a possibilidade de viver com arte a solução de seus problemas.

ENTREVISTAS CONSULTADAS:

A solidariedade é a única cura. Entrevista com Jürgen Habermas – Instituto Humanitas Unisinos – IHU

Habermas, 90 anos de inquietude filosófica – Instituto Humanitas Unisinos – IHU

Jürgen Habermas: “Não pode haver intelectuais se não há leitores” | EL PAÍS Semanal | EL PAÍS Brasil (elpais.com)

LIVROS CONSULTADOS:

– A Nova Obscuridade. Editora Unesp. 2011.

– Consciência Moral e Agir Comunicativo. Editora Tempo Brasileiro. 1989.