MORIN: CONCILIAR ECONOMIA, ECOLOGIADEMOCRACIA

Edgar Morin completou 99 anos em 8 de julho de 2020. Ativíssimo e festejado como um dos iluminadores da atualidade, o antropólogo, sociólogo e filósofo tem trinta e quatro títulos de doutor honoris causa concedido por universidades de todo mundo, por seu pensamento transdisciplinar.

Morin não previu a pandemia da Covid, mas seus posicionamentos alertam há tempos para desastres em cadeia, resultantes da mundialização tecnoeconômica e da degradação que provoca na biosfera e nas sociedades. Essas degradações estão na nascente e na maneira como se alastrou a pandemia, bem como nas respostas da chamada “economia” e de parte expressiva da sociedade a ela.

Para Morin, vivemos uma crise global e multidimensional. À interdependência econômica e ambiental, não correspondeu uma solidariedade global. O que a pandemia revelou, na visão do pensador francês, é que tudo que estamos passando está ligado, já que a catástrofe sanitária da pandemia trouxe junto catástrofes em cadeia em tudo que é humano.

Em entrevista ao jornal Le Monde, em abril de 2020, publicada no Brasil pelo portal Carta Maior,

Morin diz: “Na minha opinião, as deficiências no modo de pensar, combinadas ao domínio indiscutível de uma sede frenética por lucros, são responsáveis por inúmeros desastres humanos, incluindo aqueles que ocorrem desde fevereiro de 2020”.

As deficiências no modo de pensar a que se refere o filósofo dizem respeito à compartimentalização do conhecimento especializado, em oposição ao que deveria ser sua comunicação e interligação. Ele afirma que estamos aprendendo num modo de conhecimento que nos leva a separar o que está ligado.

Esse território está longe de ser o do simples engano, como nos mostra a dura realidade dos dias de hoje. O pensamento simplificador pode tornar-se a fonte de acesso da tirania neofascista ao poder, como foi o caso da eleição de Bolsonaro. Lembra-nos Morin, “o pensamento simplificador desintegra a complexidade do real” e não basta apenas sustentar um pensamento complexo em oposição a ele, devemos saber integrar as formas simplificadoras de pensar na construção do complexo, desbastando “as consequências mutiladoras, redutoras, unidimensionais e finalmente ofuscantes de uma simplificação que se considera reflexo do que há de real na realidade”. Essa é a condição para livrar a sociedade de ficar prisioneira da simplificação.

As entrevistas e participações do filósofo no debate destacam que vivemos a crise da humanidade que não consegue se humanizar. Ele propõe a luta pelo estado de bem-estar em nível internacional, numa visão ecológico-humanista. Todos os povos são multiculturais, afirma Morin, defendendo a abertura para a diversidade e para um pensamento onde economia, ecologia e democracia participativa estejam conciliados.

O DESAFIO DA CULTURA

Morin considera a vida social como parte da ecologia, inclusive no processo de degradação em curso. Não é só o ambiente natural que está degradado, mas o ambiente humano, político, econômico e cultural. Esse é um sentido claro em sua visão de tudo estar ligado. A cultura, portanto, é cultivo e território de formação do sentido comum que damos ao presente difícil que é vivermos na pandemia.

O que vai ser priorizado? Onde a solidariedade se manifesta? Onde se manifesta o egoísmo? Como disse Raymond Willians, criador e expoente dos Estudos Culturais, a cultura de um povo só pode ser o que todos os seus membros se empenham em criar no ato de viver. A ligação entre as coisas do presente e o futuro de tudo, passa pelas comunidades e populações participando da articulação de significados e valores, e das consequentes decisões entre este e aquele significado, entre este e aquele valor. Nada pode ser mais cultural que isso.

A esfera do conhecimento preocupa muito a Morin. Se vai estar segmentada, ou se vai oferecer a esse momento de disputa do presente e do futuro uma consciência interligada. Da mesma forma, Williams se preocupou que a cultura não fosse vista ou restrita a coisa de iluminados, que a detivessem, enquanto outros não a tivessem. Não deve haver muros em torno desse jardim. “Todos os canais de expressão e de comunicação deveriam estar abertos e acessíveis, de forma que toda a vida real … possa estar disponível para a consciência e para a significação”, ponderou ele.

Penso que políticas culturais, assim como as ações culturais de artistas, grupos criativos e comunidades, têm que estar ativadas nesse presente em disputa, em especial para instaurar no ambiente coletivo o sentido ecológico de humanidade. Nenhuma dificuldade deve impedir essa inserção, nem mesmo o fato de que as condições do ganha-pão e do próprio contato dos artistas com o público estarem restritas pelo distanciamento necessário.

Penso que seja essa realidade presente e esse sentido de clarear a prioridade da vida nossa “matéria prima”, agora. A arte é das comunicações mais capazes de fazer ver as escolhas e os rumos diante da crise. E onde houver políticas culturais democráticas, é hora de pautarem esse desafio.

ENTREVISTAS CONSULTADAS:

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/600849-a-crise-de-uma-humanidade-que-nao-consegue-se-tornar-humana-segundo-edgar-morin

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/598378-esta-crise-nos-interroga-sobre-as-nossas-verdadeiras-necessidades-mascaradas-nas-alienacoes-do-cotidiano-entrevista-com-edgar-morin

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/603398-o-poder-da-incerteza-entrevista-com-edgar-morin

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/600847-a-juventude-de-edgar-morin

LIVROS CONSULTADOS:

– Os sete saberes necessários à educação do futuro. Cortez Editora e UNESCO. 2014.

– Introdução ao pensamento complexo. Editora Sulina. 2005.