BRECHT E AS CRIANÇAS: A ESTÉTICA DAS PERGUNTAS

Há um texto de Bertolt Brecht, chamado Escola de Estética, apresentado ao Brasil por Ingrid Dormien Koudela na abertura de seu livro Texto e Jogo (Editora Perspectiva). Vou transcrevê-lo integralmente:

……….

Escola de Estética

Para desenvolver o gosto nas crianças, é preciso que entrem em uma escola especial onde possam fazer aquilo que se faz com a química nos laboratórios. Elas devem ter máscaras, roupas e objetos para brincar. Elas devem ter móveis para decorar quartos no cenário. Os móveis devem ser de boa e má qualidade, as roupas de diferentes qualidades. Elas precisam ter blocos de construção com peças de épocas diferentes, entre as quais possam escolher. A partir de pequenos moldes devem aprender a planejar jardins e a fazer arranjos com flores artificiais. Para a aula de música elas necessitam de gravadores, com fitas de trechos de obras musicais. Elas devem aprender a fotografar e a fazer composições, a moldar e a pintar potes de barro. Elas necessitam de tipografias para compor páginas de livros. De pastas com imagens Kitsch. Precisam ler poemas, e ouvir bons e maus oradores, em discos. Precisam de caixas com objetos de uso nobre, talheres, cartas de baralho.

………

Não há informações sobre quando o texto foi escrito ou o contexto que o tenha gerado. Tampouco encontrei referência sobre ele em outros escritos e devo dizer que essa condição de me enfronhar no assunto Brecht, crianças e estética, por minha conta e risco, me deixa feliz.

Há alguns dias publiquei sobre John Dewey, filósofo e educador americano, também abordando estética e educação infantil. Das confluências entre Brecht e Dewey, uma precisa ser imediatamente registrada: ambos usam o termo laboratório para falar da forma de realizar o contato das crianças com a criação estética.

Brecht é ao mesmo tempo artista criador e pensador da estética, o que faz com que mereça a atenção diferenciada dada a um especialista, no mais profundo sentido. Observem que no texto ele sugere um ambiente cheio de diferentes materiais e referências, que deveriam estar disponíveis, sem dar maiores explicações. É para que o vazio de explicações fale por si mesmo: o essencial é que as crianças tenham liberdade e referências. A única definição vem no início do texto, quando sugere uma escola onde as crianças “possam fazer aquilo que se faz com a química nos laboratórios”.

Não é um laboratório onde as crianças são a experiência, mas onde elas experimentam e alçam seus voos. A experimentação do ato artístico, em Brecht, é o componente essencial de uma pedagogia. Ele registra (Diário de Trabalho, 07/12/1939) que os elementos e as soluções estéticas nascem de combinações díspares pelas pessoas que vivem a experiência artística criadora, cantando, desenhando, atuando, escrevendo, compondo personagens. Considera fundamental a observação do ato artístico no nascimento, onde são feitas as opções de dar forma.

John Dewey recomendou que o ambiente educacional tratasse as crianças como sementes em sentido científico, preparando-as para a imprevisibilidade do futuro, dando-lhes o comando de si mesmas. Brecht baseia toda sua relação com a criação poética e dramatúrgica considerando que somos todos filhos de uma era científica. Como tais, podemos nos divertir com a busca de solução para nossos próprios problemas. Às descobertas do conhecimento são tratados como uma fonte de prazer.

ANDREA E GALILEU

Uma das passagens que considero mais belas da dramaturgia do teatrólogo está no início da peça “Vida de Galileu”, num diálogo que é também um embate entre o cientista e o menino Andrea Sarti, de 10 anos, que Galileu tomou como aprendiz, por ver nele intensa curiosidade:

……….

Galileu:

– Você acabou entendendo o que lhe expliquei ontem?

Andrea:

– O que? Aquela história do Copérnico e da rotação?

Galileu:

– É.

Andrea:

– Não. Por que o senhor quer que eu entenda? É muito difícil, e eu ainda não fiz onze anos, vou fazer em outubro.

Galileu:

– Mas eu quero que também você entenda. É para que se entendam essas coisas que eu trabalho e compro livros caros em lugar de pagar o leiteiro.

Andrea:

– Mas eu vejo que o Sol de noite não está onde estava de manhã. Quer dizer que ele não pode estar parado! Nunca e jamais.

Galileu:

– Você vê! O que é que você vê? Você não vê nada! Você arregala os olhos e arregalar os olhos não é ver.

Galileu põe a bacia de ferro no centro do quarto.

– Bem, isso é o Sol. Sente-se aí.

Andrea se senta na única cadeira; Galileu está de pé, atrás dele.

– Onde está o Sol, à direita ou à esquerda?

Andrea:

– À esquerda.

Galileu:

– Como fazer para ele passar para a direita?

Andrea:

– O senhor carrega a bacia para a direita, claro.

Galileu:

– E não tem outro jeito?

Levanta Andrea e a cadeira do chão, faz meia volta com ele.

-Agora, onde o Sol está?

Andrea:

– À direita.

Galileu:

– E ele se moveu?

Andrea:

– Ele não.

Galileu:

– O que é que se moveu?

Andrea:

– Eu:

Galileu, berrando:

– Errado! Seu burro! A cadeira!

Andrea:

– Mas eu com ela!

Galileu:

– Claro. A cadeira é a terra. Você está em cima dela.

Dona Sarti, que entrou no quarto para fazer a cama e assistiu a cena:

– Seu Galileu, o que o senhor está fazendo com meu menino?

Galileu:

– Eu o estou ensinando a ver.

……….

O diálogo, árido e afetivo, trata de um elemento essencial da educação estética: a percepção. Brecht coloca a circunstância comum de uma criança e seu professor numa encruzilhada definitiva da história, quando a ciência lutava contra as barreiras da fé e do poder para progredir em suas descobertas. Isso dependia de libertar a curiosidade dos dogmas que a prendiam. Quantas questões importantes de elucidar não estão à nossa espera hoje, onde a percepção estética e histórica são decisivas? Estamos preparados para elas? Estamos abertos a elas? Sabemos dar caminho e liberdade para a curiosidade das crianças em relação a elas? Sabemos instigar sua curiosidade para questões essenciais?

O SR. KEUNER, QUE PENSA

 Durante 30 anos, de 1926 até 1956, ano de sua morte, Brecht escreveu pequenas histórias em torno de um personagem, o Sr. Keuner. Esse nome, em termos de derivação, pode remeter a uma origem no termo grego Koinós, “que diz respeito a todos”, mas o próprio Brecht nunca fez essa apresentação. Ele o definia como “o pensador”, ou “aquele que pensa” e o mais interessante é que esse personagem tinha um papel: levar os que participavam dos experimentos das peças didáticas a refletir sobre sua atuação nessas experimentações. “Histórias do sr. Keuner” foram, inicialmente, elementos de mediação, para provocar reflexão.

O teatro didático proposto por Brecht é marcado por exercícios criativos coletivos. Não eram feitos tendo a plateia como fim, nem necessariamente tinham plateia, porque visavam a aprendizagem experimentadora, os modelos de ação para entender e expressar o comportamento humano. Essas experiências que envolviam amadores estavam ligadas a terrenalizar a experiência artística, o que considero a mais profícua relação da arte – e da estética como percepção e expressão – com a educação.

As “Histórias do Sr. Keuner” foram reunidas e publicadas pela primeira vez com esse título em 1971. Não são lição moral, nem máximas. São provocativas. Sobre o Sr. Keuner, quase nada é dito, mas entre as poucas coisas, uma significativa é que ele tem uma sobrinha bem criança. E essa sobrinha é ponte para uma escrita onde a infância é o horizonte de referência:

(O Sr. Keuner e o desenho de sua sobrinha)*

O Sr. Keuner observou o desenho de sua sobrinha pequena. Representava uma galinha voando sobre um pátio. “Por que a sua galinha tem três pernas?”, perguntou ele. “As galinhas não voam”, respondeu a pequena artista, “por isso precisei de mais uma perna para dar o impulso.”

“Estou contente por ter perguntado”, disse o Sr. Keuner.

É um escrito para nos facilitar ver e ouvir as crianças como são, com seus motivos e imaginação. Uma criança entre 4 e 6 anos, finalizando a primeira infância, apontou Vygotsky, imagina e personifica atribuindo papeis e resolvendo problemas. O que nos parece fantasia pura e simples, para elas é uma equação real, ainda que imaginária. Brecht, pelo Sr. Keuner, o pensador, coloca essa relação estética em evidência.

undefined

Outra feita do Sr. Keuner, que ganhou título próprio no Brasil como livro infantil, está no texto “Se os tubarões fossem homens”. Apresento aqui o trecho inicial do texto, tirado da tradução de Paulo Cesar de Souza nas “Histórias do sr. Keuner, publicação da Editora 34:

“Se os tubarões fossem homens”, perguntou ao sr. K a filha de sua senhoria, “eles seriam mais amáveis com os peixinhos?”. “Certamente”, disse ele. “Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal como vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca, e tomariam toda espécie de medidas sanitárias. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, então lhes fariam imediatamente um curativo, para que ele não lhes morresse antes do tempo (…).

É um misto de parábola e fábula, já que transmite uma mensagem por analogia, envolvendo o mundo animal e o mundo humano. Mas o fundamental nele é a dialética de Brecht: quando se espera do sr. Keuner uma resposta onde o mundo humano fosse idealizado como de compaixão, é justamente o contrário que vem: o interesse dos tubarões, se fossem homens, seria um cultivo interesseiro dos peixinhos como alimento, que termina com a seguinte frase: “Em suma, haveria uma civilização no mar, se os tubarões fossem homens.” É a recusa ao senso comum, abrindo a visão.

A TRISTE CRUZADA DAS CRIANÇAS

Por fim, quero comentar “A Cruzada das Crianças”, poema de 1939, quando Brecht ainda estava no exílio na Suécia. O poema foi editado e publicado no Brasil pela Editora Pulo do Gato, em 2014. Uma edição digna de todos os elogios, com tradução de Tercio Redondo e ilustrações magníficas de Carme Solé Vendrell, ilustradora espanhola.

Quando li pela primeira vez o poema, no começo da década de 1990, não o vi como poema para crianças. Depois, ao início dos anos 2000, ao comprometer-me com práticas arte-educativas e  com a criação de poemas para as crianças, pude perceber que as escritas para elas não devem ser infantilização caricata para poupá-las das dores e injustiças do mundo.

O poema de Brecht é sobre a tragédia da segunda guerra. Narra desventuras de um grupo de crianças polonesas órfãs de guerra, vagando pelo inverno em busca de um lugar seguro para se refugiarem, aterrorizadas com tudo com que se defrontam, contando basicamente consigo mesmas. Um trecho:

A menina de onze anos / arrasta uma de quatro, / parecia ser a mãe, / só faltava o lar pacato.

Um garotinho judeu, / ao bem-bom acostumado, / vinha junto, bem-vestido, mas se viu logo entrosado.

E surgiram dois irmãos, / estrategos de talento; / arrombaram um casebre, protegendo-os do vento.

Um magrinho de uniforme / andava à margem da pista; / tinha a consciência pesada, / seu passado era nazista.

E seguia junto um músico / que um tamborzinho encontrara / mas tocar-lhe foi proibido, / pois o som os denunciava.

Traziam também um cão / para ser sacrificado; / virou uma boca a mais, / pois, por dó, era poupado.

É um poema dolorido. Deveríamos poupar as crianças de sua tristeza? Do que as estaríamos poupando? De nada, pois a vida não poupa de horrores, tragédias ou injustiças. Mas as estaríamos privando de um aprendizado de aceitação do outro, de senso coletivo, de auto-organização, coisas que estão no poema do começo ao fim. Final sem redenção, sem felicidade. As crianças desaparecem. Perecem no inverno, no mundo inóspito e destruído pela guerra. Só se salva o cão, com um bilhete pedindo socorro amarrado ao pescoço. E o pedido é ignorado…

É o modo de Brecht levantar ao leitor às questões da história. Ficamos com a incômoda pergunta: “Por que?” Imagino a pergunta que fariam as crianças, lendo ou ouvindo de seus pais a leitura do poema. “- Por que não foram socorridas?” E subjacente a ela: “Que mundo é esse que não as socorreu?” Isso é Brecht. Sua estética é um ponto de interrogação. E a interrogação é igualmente o ponto de aprendizagem que a criança porta consigo.