A COMUNICAÇÃO NOS PROJETOS

Na sequência de textos sobre planejamento e elaboração de projetos, o artigo de hoje é sobre a comunicação e seu papel nas iniciativas culturais. É um assunto vasto, que pode ser abordado de muitas maneiras. A escolhida aqui assenta-se na cultura como ambiente que direciona o olhar sobre a vida social.

O artigo tem duas partes. A primeira localiza o entrelaçamento da cultura e da comunicação na atualidade, “nesse tempo que sobre a terra nos foi dado” – parafraseando Bertolt Brecht. A segunda terá recomendações práticas para a comunicação no planejamento e desenvolvimento dos projetos.

A CULTURA EM TORNO DA COMUNICAÇÃO

Vivemos uma atualidade paradoxal em termos de comunicação. Somos ao mesmo tempo os herdeiros da comunicação massiva, mercadológica e verticalizada em grandes empresas, que se desenvolveu no Século XX, e protagonistas da possibilidade ampla de gerar e difundir comunicação, a partir do ambiente da cibercultura, que ganhou força desde o início do Século XXI. Esse é nosso dilema e desafio.

Raymond Williams, fundador e dos mais importantes pensadores dos Estudos Culturais, localizou a comunicação como “uma sólida muralha” do poder capitalista, identificando a fórmula massiva dela como criação mercantil. “Quem é massa”?, ele pergunta, lembrado que ninguém vê a si mesmo, aos amigos, familiares e vizinhos comunitários como “massa”. “Na verdade não há massas; há apenas maneiras de ver as pessoas como massas”, diz o estudioso.

Para ele, a massificação é uma fórmula que se origina da intencionalidade. Dirigem-se e têm aos outros como massa aqueles cuja intenção é a persuasão de um grande número de pessoas, buscando estatísticas niveladoras, manipulando pulsões comuns e tendo interesses comerciais ou de controle e poder à frente de sua produção comunicativa.

Se, ao contrário, objetiva-se informar, educar ou difundir a arte, busca-se pessoas concretas, interessadas, na condição de cidadãs. Pode haver a intenção de convencer ao outro, mas ela é transparente, mostra-se, declara-se e coloca a comunicação como uma oferenda de si.

Um outro aspecto levantado por Williams é a necessidade de entendermos a comunicação dentro do viver. Há um senso comum de que a comunicação vem em seguida a fatos importantes, como uma notícia após um acontecimento, como um modo de falar da realidade. Assim, deixamos de perceber a cultura que estrutura toda nossa visão do real, portanto, o modo como vemos e como falamos das coisas. Se isso não puder ser corrigido, nada poderá ser corrigido, alertou o estudioso.

Se não pudermos ver o que fazemos – a arte e a cultura – em uma dimensão de importância, como poderemos comunicá-la assim? Não falo, aqui, simplesmente, se damos ou não importância ao que fazemos, como se estivesse a dar puxão de orelha. Falo em importância concreta e real do que fazemos para resolver problemas e fazer sentido, para além de nós mesmos, do próprio meio artístico.

Tenho usado, na série de artigos sobre elaboração de projetos, o exemplo de uma oficina de teatro para crianças do ensino fundamental, em uma escola pública. Vou seguir esse exemplo também para considerar como uma visão cultural determina uma ação comunicativa:

Se vemos que o processo artístico pode contribuir com a segurança e a sociabilidade nas comunidades; se oferecemos às crianças alternativas de convívio e criação que as afastam da criminalidade, podemos capturar casos e resultados, e gerar comunicação nesse sentido. Se considerarmos que segurança é só assunto de polícia e não houver percepção para as possibilidades da arte nesse campo, a contribuição que a oficina teatral porventura der passará despercebida.

Williams defende que a comunicação não é secundária, não é só difusão depois do feito. É o modo como pensamos o que é ou não importante, como e onde está a importância e o que vamos enfatizar; o que – e como – vamos mostrar.

O MUNDO NA CIBERCULTURA

Em 1999, o filósofo, sociólogo e pesquisador Pierre Lévy, professor de Hipermídia da Universidade de Paris, apresentou ao Conselho Europeu um relatório no âmbito do projeto “Novas Tecnologias: cooperação cultural e comunicação”, que foi posteriormente editado em livro, com o título “Cibercultura”, tornando-se uma das principais referências sobre o contexto cultural que emergiu da conectividade e das novas tecnologias da informação.

Lévy conceitua como cibercultura o processo global de comunicação, cultura e modo de vida que surge das novas tecnologias digitais e da interconexão mundial dos computadores, o chamado ciberespaço. A cibercultura envolve a ampla possibilidade de todos gerarem e circularem informação, quebrando a verticalidade monopolista das grandes mídias, com reflexos no mundo das artes, da música, do jornalismo, das relações com o saber e a aprendizagem, dos valores morais, da sexualidade, da política, etc.

Quando Lévy publicou seu famoso livro, vivíamos a incipiência desse processo em que hoje estamos imersos. Vivemos em plena cibercultura. É fácil identificarmos, de nosso agora, as experimentações e criatividade emergentes nas redes. Ao redigir esse artigo, em meio ao isolamento corporal necessário para o combate à pandemia do coronavírus, ouvi duetos musicais criados por músicos distantes um do outro, e apresentações musicais em sacadas de prédios no Brasil e na Itália. Assisti um tango tocado e dançado por um casal de sua cozinha em Paris e gravações de espetáculos teatrais liberados por grupos brasileiros e estrangeiros. Desnecessário dizer mais para destacar os prodígios desse tempo…

Mas o estudioso alertou que o contexto da cibercultura é caótico no transbordamento de informações e que os contatos acontecem de modo ainda um tanto anárquicos. O ciberespaço é também território das fake News, dos discursos de ódio e da ação dos grupos preconceituosos e neonazistas. É território onde também os idiotas ganharam voz e organicidade, como alertou Umberto Eco.

A cibercultura é um novo dilúvio informacional que não terá fim, e onde devemos saber navegar com as arcas de nossos projetos, alerta Pierre Lévy. É preciso estar atento à interconexão das mensagens e saber conferir e atualizar o sentido do que fazemos, ao comunicar.

COMO PLANEJAR A COMUNICAÇÃO?

A comunicação de um projeto deve ser parte intrínseca, essencial, dele. Conheço projetos e fazeres artísticos maravilhosos, verdadeiros prodígios na vida das pessoas, tanto em sentido estético – de propiciar olhares, perspectivas enriquecedoras e deleite -, quanto em sentido cognitivo, de leitura de mundo e desenvolvimento expressivo e criativo… Mas pouco e mal conhecidos!

Os projetos culturais são universos. Há em torno das linguagens artísticas com que lidam uma história social, cultural e estética que a maior parte da população desconhece. Há na trajetória deles uma riqueza de experiências metodológicas, pedagógicas ou de produção. Há histórias de vida envolvendo os atendidos e o público. Histórias mudas, na maior parte das vezes. Lembranças e registros que se perderão, por falta de comunicação.

Deixa-se de desenvolver comunicação nos projetos por falta de planejamento, por amadorismo e por subestimar as possibilidades do universo comunicacional da cibercultura. É bem verdade que os recursos dos editais de fomento muitas vezes mal cobrem a execução da ação cultural central prevista no projeto e as equipes, principalmente, ficam sub-remuneradas. Mas é verdade também que, sem uma boa comunicação e sem dar a conhecer seus fazeres e potenciais, os projetos dificilmente chamarão atenção de patrocinadores, o que dificulta novos voos e sustentabilidade para a ação cultural.

Vou elencar aqui algumas dicas importantes para, ao planejar o projeto, planejar também a comunicação e planejar-se para a comunicação.

– A comunicação deve preocupar-se com a imagem e o elã do projeto

A imagem, aqui, refere-se ao imaginário que alimenta e que desperta na sociedade com sua ação cultural. E o elã tem a ver com a vivacidade, a força impulsiva e calorosa do sentimento que desperta nas pessoas. Um bom planejamento de comunicação deve se colocar: que imagem e que elã queremos e podemos gerar?

– Deve haver periodicidade e continuidade

A comunicação do projeto não pode viver de melhores momentos. É preciso informar o público com constância, ampliando-o. A imagem desejada para o projeto depende muito de que a ação cultural seja consistente e a comunicação tenha sequência, constância e pulsação. Uma periodicidade pelo menos semanal, nos tempos atuais.

– Escolha consistente das mídias

Instagran, Facebook, canal no Youtube, Waths App, blog, site, correio eletrônico, podcasts, etc. Quais mídias escolher para a comunicação do projeto? Vai ser possível alimentar todas as desejadas? Em quais o planejamento irá investir? A resposta a essas perguntas depende do perfil e das pernas de cada projeto.

Vai depender de se ele gera muitas imagens interessantes, se pode colher muitos depoimentos, se é bastante conceitual e vai exigir mais textos, etc. Depende também de seus públicos. O exemplo que temos usado aqui, das oficinas de teatro, pode ter como um dos públicos de sua comunicação os educadores do ensino fundamental e as instituições escolares. Outro público podem ser as crianças. E cada um deles pede mídias e estratégias editoriais diferentes.

A escolha das mídias também depende das aptidões de que o projeto pode se servir para gerar comunicação, ou seja, se pode contratar profissionais ou se dependerá das habilidades e equipamentos que a própria equipe dispuser.

– Deve haver diretriz editorial

Uma diretriz editorial corresponde aos universos em torno do projeto e das informações importantes e atrativas que pode e/ou deve gerar.

Quais as temáticas envolvidas? Que aspectos interessantes elas contêm? Que casos e histórias curiosas o andamento do projeto pode gerar? Que metodologias são utilizadas e por quê? Por que e para quem esses assuntos e histórias são importantes?

A diretriz editorial envolve também o tom e a dimensão das informações. Se elas devem ser mais leves e divertidas, ou mais sóbrias e aprofundadas, etc. Como aprofundar sem ser cansativo? Tudo isso é planejamento editorial.

Um ebook ou um vídeo-documentário, por exemplo, podem ser estratégias editoriais importantes para uma difusão ao final do projeto, aproveitando todo seu trajeto, solidificando a imagem macro que está sendo trabalhada.

– Deve haver percepção, atenção e preparo para captar o que é importante, principalmente o elemento humano

No jornalismo costumamos dizer que nada supera uma boa história. E sabemos que as antenas da percepção precisam estar ligadas para captá-las, sob risco de que os tesouros sejam enterrados.

Eu já vi casos de crianças de 5 anos, periféricas, fazendo musicalização instrumental erudita e, ao aprender, tomando iniciativa ousada de compor. Qual o significado dessa atitude, considerando as enormes dificuldades de acesso à cultura? Já vi famílias encantadas por entrar em um teatro pela primeira vez, porque sua criança estaria no palco, dançando. As histórias – as que conheço – são milhares. E são milhares os que conhecem outras mil histórias. Mas quase todas não foram registradas e divulgadas.

Há atitudes que os projetos, ao se planejar, devem prever:

Manter diários de trabalho, registrando acontecimentos e impressões. Prever ter sempre à mão pelo menos aparelhos celulares capazes de fotografar e registrar em vídeo e áudio. Colher depoimentos de participantes, de públicos, de lideranças comunitárias envolvidas, etc. É preciso preparar-se para isso. E não é difícil ter orientação para qualificar a captura de imagem e som.

O cronograma do projeto, em suas várias fazes, deve vislumbrar os momentos mais interessantes de cada uma delas e preparar-se para capturar e gerar matérias, notícias e postagens.

– Investir na qualidade dos materiais

Preferencialmente, o projeto deve cercar-se de profissionalismo também na comunicação. Prever assessoria com jornalista, designer, edição de vídeo, etc. Caso isso não seja possível uma contratação de serviços, deve suprir essas necessidades preparando pessoas da equipe e tentando parcerias com profissionais.

Não esquecer que a disputa por atenção é grande no dilúvio da cibercultura. Bons textos, com correção e clareza, e boas imagens, são elementos primordiais, das quais as boas histórias e as boas práticas dependem para serem conhecidas e reconhecidas.

– Relação inteligente e profissional com a imprensa

As imprensas – TVs, rádios, jornais, sites de notícias, blogs jornalísticos -, embora não sejam mais as fontes exclusivas da informação, são fontes credenciadas e balizadoras de importância das iniciativas culturais. Um projeto cultural deve manter editores dessas mídias jornalísticas informados de suas finalidades e de suas atividades.

Sugiro duas atitudes: uma mais fria, de informação das finalidades e do calendário geral do projeto, que chama a atenção para ele como um todo e informa seus momentos principais. Embora essa informação possa não gerar notícia ou matéria, ela contribui para aproximar as atenções da imprensa em relação ao projeto.

Outra atitude é a geração de releases informando os momentos social e culturalmente mais importantes. Nos releases devem estar às informações necessárias, com indicações sobre sua importância. E, claro, contato para mais informações e entrevistas. É importante ter em mente quais histórias e ações do projeto podem despertar a atenção de um programa de TV ou de rádio. E saber quem contatar para passar essas dicas. A cordialidade e o profissionalismo são fundamentais para uma boa relação com as mídias de imprensa.

Essas são algumas considerações para pensar a comunicação ao planejar um projeto. No próximo artigo, que finaliza a série, o assunto será a busca por patrocínio. Tenham boa leitura e façam bom proveito!