REDIGINDO O PROJETO

Na sequencia de artigos sobre planejamento e elaboração de projetos culturais, chegou a hora de tratar da redação do projeto. Já vimos, em artigos anteriores, quatro outros desafios: a importância de que o projeto seja planejado para prover o acesso à cultura; a incubação como preparo do nascimento dos projetos; o mapa dos desejos e o mapa das demandas como caminhos conscientes pelos potenciais e necessidades da proposta e a projeção estruturante como sequencia de desafios organizadores do projeto.

Registro esses artigos anteriores, escritos nessa ordem, para lembrar que não se começa um projeto pela redação, a não ser que não seja um planejamento de fato, mas uma tentativa desorganizada de acessar recursos de fomento cultural. Assim ele terá fragilidades e menores chances de passar por uma análise criteriosa.

Chegando o momento de redigir, é preciso ter claros os objetivos, as metas, as fases do desenvolvimento, as diversas ações dispostas em cronograma, relacionadas as necessidades de infraestrutura e orçamento, etc. Sem isso, a redação fica sem objetividade, sem clareza.

Ao prepararmos os pontos e argumentos que deverão estar na redação do projeto, temos que ter em mente três perguntas: O que se pretende fazer? Como fazer? Por que fazer? Geralmente essas são as perguntas que motivam a estrutura dos formulários para apresentação de projetos nos vários editais. “- O que?”, correspondendo principalmente a Objetivos e Metas; “- Como?” ao Plano ou Estratégia de Desenvolvimento e ao Orçamento e “- Por que?” correspondendo a Justificativa e/ou Apresentação.

A redação corresponderá, sobretudo, a organizar as informações e os argumentos de modo otimizar a clareza e a coerência da proposta. Uma boa forma de pensar na clareza necessária é perguntarmos – a nós mesmos, pessoas que estão juntas na montagem do projeto e a algum colaborador de fora – o que um analista de projetos, que não conhece o proponente de antemão, nem sua visão nem sua prática cultural, precisa saber para convencer-se de que a proposta é uma boa proposta, que será bem executada.

O QUE?

Na redação, aconselho começar sempre pelos objetivos e metas, ou seja, explicando O QUE será o projeto. Recomento a redação em forma de tópicos, tratando um de cada vez, de preferência em ordem de importância, dos mais gerais aos decorrentes deles. Na redação desses vários itens, a prioridade é apontar bem o que são como ação cultural. Vamos exemplificar, voltando ao exemplo utilizado no artigo anterior, como se estivéssemos elaborando um projeto de oficinas de teatro para crianças do ensino fundamental de uma escola pública.

Nosso objetivo geral pode ser formulado assim:

– Realizar, pelo período de um ano, uma oficina de jogos e expressão teatral para uma turma de 20 crianças da escola X, visando desenvolver processos de leitura de mundo, aprendizagem e criação a partir do teatro;

Este objetivo geral pode se desdobrar em objetivos específicos, decorrentes, mas com importância própria, que exigirão ações e metas específicas. Por exemplo:

– Proporcionar às crianças a desinibição e o trabalho criativo em grupo, pela vivência de jogos teatrais, onde o fundamental é a experimentação compartilhada;

– Trabalhar junto aos participantes a criação de esquetes teatrais, dividindo-os em grupos menores, que trabalharão em torno de uma temática comum, gerando, a partir das várias esquetes criadas, uma peça teatral que será depois lapidada, ensaiada e apresentada ao final do projeto;

– Editar um vídeo-documentário, registrando o processo criativo das oficinas para compartilhamento da experiência, de modo que possa inspirar e orientar ações pelos caminhos arte-educativos do teatro em outras unidades escolares.

Vejam que nesses tópicos não se delongou com explicações do que seriam “jogos teatrais” ou “experimentação compartilhada”. Isso é assunto para o Plano de Desenvolvimento, onde explicamos como será feito.

O que é importante relacionar como objetivo é aquilo que, em relação ao objetivo maior, geral, tenha uma importância especial, envolvendo ações com características próprias e obtendo-se deles resultados específicos importantes. No caso do exemplo da oficina teatral, seria interessante, também, ter como objetivo realizar reuniões de compartilhamento pedagógico com a equipe de professores da escola, de modo que possam conhecer, acompanhar e se apropriar pedagogicamente do processo das oficinas.

COMO?

Ao redigir as estratégias e planos de desenvolvimento, explicamos COMO realizaremos o projeto. Há formulários que preveem relacionar a sequencia de ações, elencando-as de modo sintético, dentro de etapas ou fases. As fases e etapas mais comuns são Pré-produção (ou preparação), Produção (ou realização) e Pós-produção (ou conclusão).

Neste caso, é muito importante que a redação relacione o planejamento de modo sequencial, demonstrativo e didático, formando uma visão de como irão se desenrolar as atividades. Ao lê-las, os analistas devem ter noção de que papel as ações estarão cumprindo em relação aos objetivos apontados no projeto e o que geram em cada fase.

O que seria a fase de pré-produção? Seria a organização necessária para o início das oficinas. Vamos exemplificar, a partir do projeto imaginário de oficinas teatrais para crianças:

  • Laboratório preparatório para afinar a equipe e a metodologia do projeto;
  • Laboratório com a direção e equipe de professores da escola parceira para que conheçam bem o projeto, saibam como irá funcionar, como acompanhar e como contribuir;
  • Definição, junto com a escola parceira, dos critérios para a escolha da turma de alunos que fará a oficina;
  • Contato inicial com a turma, informando sobre o projeto e como serão as oficinas de teatro;
  • Preparação e ambientação do espaço para início das atividades;
  • Definição e preparo, pela equipe do projeto, da forma de início das atividades da oficina, visando que sejam marcadas pela ludicidade e conquista do trabalho em grupo.

E assim segue-se esse mesmo formato de redação para a fase de produção e a de pós-produção, aplicando-se ao que foi planejado uma redação sintética, descritiva da sequência de ações.

Há formulários para apresentação de projetos em que a redação é relativamente mais livre, ficando por conta do proponente delimitar as fases e a forma como se darão as ações correspondentes ao projeto. Nesses casos, o proponente tem a oportunidade de explicar melhor as ações propostas, respeitando os limites ao tamanho dos textos.

Exemplificando com o caso do projeto de oficinas teatrais, poderíamos escrever assim:

“Etapa preparatória para o início da oficina:”

E descrever o laboratório preparatório envolvendo a equipe do projeto da seguinte maneira:

“Laboratório preparatório para afinar a equipe do projeto: com duração de três dias, com três horas diárias de atividades, esse laboratório fará leituras de autores de referência em dinâmicas teatrais e educação infantil e exercitará dinâmicas entre os componentes da equipe, focadas nos objetivos iniciais da oficina, investindo na ludicidade e na criação de um senso de grupo de trabalho entre os alunos participantes.”

Veja-se que, neste caso, manteve-se o caráter objetivo e descritivo do texto, porém proporcionando ao leitor/analista do projeto uma visão mais clara do intuito do laboratório.

POR QUE?

Na Justificativa ou, por vezes, na apresentação do projeto, está o espaço para defender a importância da proposta. A escolha dos aspectos que devem ser destacados é uma arte de percepção e interpretação, em consonância com o edital onde o projeto será apresentado e as circunstâncias sociais e culturais que motivam a proposta.

Algumas coisas devem estar em mente: as principais demandas que o projeto se propõe atender; os principais trunfos dele no atendimento às demandas e os benefícios que sua ação deixará como resultados.

Tanto para facilitar a redação quanto para facilitar a compreensão dos analistas, recomendo redigir em tópicos. Por exemplo, assim:

– Comece com um lead sobre o projeto. No jornalismo, o lead é uma exposição sucinta da informação de que trata a notícia. No nosso caso, uma exposição do que será o projeto: O que vai acontecer; onde vai acontecer; o que vai oferecer, ou qual o objetivo maior e de quando a quando será realizado.

– Num outro tópico, comece a defesa da proposta, elencando seu principal trunfo cultural. Por exemplo, no caso da oficina de teatro para crianças, pode-se falar da importância do teatro na educação da infância. O pensador Walter Benjamin, por exemplo, destacou que a arte teatral tem uma capacidade ímpar de emoldurar o mundo, ou seja, tratar de qualquer coisa, do real ou da fantasia, através dos recursos da representação. Disse também que o teatro é ótimo canal para as inervações criativas das crianças. Esse poderia ser um excelente eixo da argumentação.

– Em seguida, pode-se expor a principal problemática social e cultural que motivou a proposta e a forma como o projeto pode dar a ela uma boa solução. No caso da oficina teatral, argumentar que ela atuará como uma alternativa pedagógica de leitura de mundo e criação em grupo, num contexto educacional carente de dinâmicas envolventes. Será um acréscimo importante de alternativas para a vida escolar. Para ajudar a acrescentar possibilidades pedagógicas, terá todo um procedimento para envolver a equipe da escola, num compartilhamento da experiência.

– É muito importante dedicar tópico (ou tópicos) aos principais resultados esperados. Os benefícios pelos quais o projeto pretende trabalhar são o principal atrativo do projeto. São a materialização de seus objetivos. Pensemos no caso do projeto de teatro para crianças: apresentar ao final do ano uma peça criada por elas nas oficinas é o ponto de consagração. Mas é muito mais que isso: é o motor em torno do qual trabalharão por metade da duração do projeto; é a materialização da criatividade do grupo; será, quando das apresentações, um forte motivador para que as demais crianças da escola se interessem por fazer teatro; será demonstração vívida da metodologia e da pedagogia arte-educativa adotada, etc. Cabe à redação da justificativa realçar isso.

– Por fim, a Justificativa deve ter um tópico final, dedicado ao que o projeto deixa após realizado, seja para o grupo que o realiza, para a comunidade ou para a estética artística. Será um tópico para destacar a herança principal, que depende das finalidades do projeto, obviamente.

No caso do projeto de teatro com que exemplificamos aqui, seria um vídeo documentário reportando a trajetória, os fundamentos, as metodologias e os resultados da oficina de teatro junto às crianças. Trata-se de um benefício materializado, que inspirará e ajudará a estruturação de outras ações, estendendo no tempo e no espaço social os benefícios.

Didaticamente, acho muito interessante que cada tópico da Justificativa tenha um subtítulo para ele, antes do texto. É como numa reportagem jornalística, onde subtítulos destacam cada viés do assunto. Assim, o ordenamento fica bem claro, evita-se a repetição e a leitura dos analistas será fluida e fácil.

Quando as ideias estão bem ordenadas, mesmo que quem vá redigir não seja um talento da escrita, a clareza vai ajudar. E até corrigir o texto fica fácil. Espero que as dicas sobre redação ajudem. O próximo artigo será sobre a importância da comunicação nos projetos. Acompanhe!!