A PROJEÇÃO ESTRUTURANTE CRIAPROJETO

Na sequência de artigos orientando elaboração de projetos, é vez de tratar da PROJEÇÃO ESTRUTURANTE. Ela define o projeto a partir de uma sequência de preocupações a serem respondidas.

As preocupações cobrem diferentes aspectos: 1) As características da ação cultural, com suas fases, pontos críticos, públicos visados e parcerias necessárias; 2) A equipe, as qualificações e a preparação; 3) O sistema de avaliação previsto para as atividades; 4) estratégias e formas de comunicação; 5) A pós-produção, com avaliação final e projeção do futuro do projeto e 6) A clareza e preparo na busca por patrocínio.

Vamos tratar cada um desses aspectos que devem estar presentes ao planejar. Em relação à comunicação e ao preparo para a busca de patrocínio, dada a complexidade e importância dos dois desafios na vida dos projetos, dedicaremos a eles artigos próprios, em separado.

Para tratar as considerações e necessidades em torno da estruturação de um projeto, vamos usar nesse artigo um caso imaginário, a título de exemplo. Imaginaremos planejar um projeto de oficinas teatrais para crianças do ensino público fundamental, onde as possibilidades do teatro estejam potencializando a aprendizagem e a expressão.

Obviamente, no campo da cultura há uma imensidão de outras possibilidades, uma bastante diferente da outra. Mas o exemplo ajudará a percepção em torno da produção cultural em geral, pelo efeito didático.

O CICLO DE VIDA DE UM PROJETO

O ciclo de vida de um projeto é variável, mas não muito. Há editais de patrocínio que preveem o período de um ano para seu desenvolvimento. Outros, um ano e meio. Há casos com previsão de dois anos.

Algumas pessoas dirão, talvez, que seu projeto é de toda uma vida, pois dedicam-se a ele há anos e pretendem continuar. É claro que aqui precisamos fazer diferença entre projetos de vida, ou de longos anos de dedicação, e projetos como ação planificada para um ciclo de tempo menor. É desses últimos que estamos tratando, e eles não excluem projetos que são de toda uma vida. Pelo contrário, nesses casos, um projeto de um ano ou dois anos corresponde a um ciclo determinado dentro do grande projeto.

O que se realça aqui é que planejar uma ação cultural dentro de um ciclo de de um a dois anos permite delimitar melhor ações e benefícios, bem como os possíveis saltos de qualidade. O psicólogo-educador Lev Vygotsky refletiu que, se propusermos à criança um desafio de conhecimento, ao atingi-lo o desafio seguinte não será simples continuidade do primeiro, porque houve um salto de qualidade e o lugar dela já é outro. Também com os projetos, ao final de um ciclo deve haver replanejamento, considerando as conquistas alcançadas. O lugar dele já será outro.

A DEFINIÇÃO DA AÇÃO CULTURAL:

Definir os objetivos e metas:

Embora existam similaridades entre objetivos e metas, e mesmo certa confusão no interpretar o que seja uma coisa e outra, compreender a diferença é essencial ao planejamento.

O objetivo diz respeito ao que se pretende alcançar. Eles são os motivos, as razões da ação cultural. São os pontos de referência de todo planejamento.

As metas são etapas, ou alcances em fases, no caminho dos objetivos. Elas se expressam em termos de quantidade e de prazos.

Vamos ao nosso exemplo:

O objetivo maior é desenvolver a leitura de mundo, a expressão e a criatividade das crianças através de oficinas de criação teatral, em uma escola pública do ensino fundamental, socializando a experiência pedagógica com os educadores da instituição.

Uma das metas, sendo uma oficina de criação, é apresentar ao final do ano de atividades uma peça criada pelas crianças, tendo como público seus pais e colegas de outras turmas, sendo esse o momento de coroamento do processo.

Identificar problemáticas e potenciais centrais:

As problemáticas centrais são as questões que precisamos trabalhar com a ação do projeto, no sentido de cumprir os objetivos. Um problema é uma pergunta que precisa de resposta. Um problema claramente colocado leva a uma resposta clara, na forma de ação cultural projetada. Os potenciais são justamente a capacidade que temos de dar respostas aos problemas centrais que nos colocamos no projeto.

No caso do nosso exemplo, como conseguir que as crianças trabalhem criando em grupo, a partir do teatro, se não estão acostumadas a criar em grupo, nem com a lida teatral? Esse é um exemplo de problemática central.

Se o grupo dispõe dos potenciais do teatro e da experiência em realizar jogos teatrais com crianças, de forma divertida, tem como dar conta da problemática, podendo planejar contando com isso.

Definir os universos abrangidos pelo projeto

É preciso delimitar qual o universo do projeto. Universo se refere às coisas que formam o todo, que se combinam e complementam em um todo. O universo de um projeto é o conjunto de relações em que se insere: o universo cultural e social; a abrangência geográfica; o universo de públicos a que se dirige; o universo de parceiros e colaboradores. É preciso tratar com objetividade essa definição, evitando generalidades.

Vejamos nosso exemplo: temos uma escola periférica, onde a maioria dos alunos nunca foi ao teatro, mas a escola tem uma equipe de educadores muito envolvida, que tem contatos e promove trocas com muitas outras unidades escolares, volta e meia tendo intercâmbio de atividades que envolvem as crianças. Nosso público compreende os alunos da escola, os professores, os familiares e possivelmente outras unidades escolares. São nossos parceiros a direção e professores da escola, a associação de pais, a equipe pedagógica da secretaria de educação. Temos pelo menos dois professores que serão nossos colaboradores diretos, porque estão muito interessados na proposta. E assim por diante. Nosso planejamento tem que tirar o melhor proveito do que seja seu universo.

Projetar as fases de desenvolvimento e o Caminho Crítico do Projeto – CCP

Há duas coisas, aqui, estreitamente relacionadas.

A primeira delas é compreender as fases de desenvolvimento da ação cultural:

  • Os preparos para o início;
  • As características e desafios do início;
  • A fase de consolidação da ação;
  • A manutenção do ritmo e energia da ação;
  • O ponto alto da ação (apresentações, lançamentos, mostras, etc)
  • O encerramento das atividades, com desprodução, balanços, difusão dos resultados, prestação de contas e ações necessárias ao reprojetar para continuidade da ação cultural.

A outra coisa é ter clareza do Caminho Crítico do Projeto – CCP, que nada mais é que vilumbrar os momentos que comprometem todo seu desenvolvimento. Momentos em que não se deve falhar.

Recorrendo ao nosso exemplo, um momento crítico é o iniciar do processo da oficina. É preciso conquistar a turma de crianças como grupo disposto e motivado para trabalhar junto. Sem esse gosto e esse sentimento desperto, não haverá compromisso e a criação coletiva vai patinar.

Outro momento decisivo, mais à frente, será a definição da temática da peça a ser criada. Ela precisa ser abraçada pelas crianças fervorosamente, tem que ser viável de se trabalhar nas condições existentes de tempo, de exploração, de estrutura, etc. Tudo deve ser imaginado ao se projetar…

Concluir o cronograma do projeto, com suas fases e atividades

É claro que, definidas as fases de desenvolvimento, finalizar o cronograma é das tarefas mais fáceis. O que não dispensa cuidados, afinal geralmente esse cronograma vai ser bastante analisado e deve expressar de forma sucinta, clara, visual, o desenvolvimento do projeto no tempo.    

QUALIFICAÇÕES E INFRAESTRUTURA

Identificar as qualificações disponíveis e as necessárias

Estamos falando do elemento humano essencial para que a ação cultural proposta tenha resolutividade e qualidade. Por vezes temos grandes qualidades e experiências acumuladas em um sentido e deficiências, ou mesmo ausências injustificáveis em outros, muito importantes. Se não houver análise, previsão e providências, o projeto pode ficar muito comprometido, ou seu sucesso na ação prevista não somar em sustentabilidade.

Imaginemos nosso exemplo: o grupo trabalha muito bem com o teatro e seus recursos de ludicidade e de representação. Essa experiência é um trunfo. Provavelmente garanta o sucesso arte-educativo do trabalho.

Porém, não costuma comunicar suas atividades, ou o faz extemporaneamente, sem estratégia, sem otimizar os recursos das novas tecnologias da comunicação, sub utiliza as mídias sociais, não mantem relações com a imprensa e formadores de opinião, não tem percepção para comunicar a riqueza das várias fazes do trabalho, etc. Sem comunicar o projeto não consegue crescer, interessar o sistema de ensino como um todo, angariar patrocínios, etc. Seu círculo se fecha.

O planejamento deve encontrar alternativas com sentido profissional, mobilizando recursos possíveis com conhecimento.

Definir a equipe do projeto:

A identificação de qualidades disponíveis e necessárias para a boa execução do projeto leva a definição de sua equipe. Mas a formação final da equipe deve vir depois, para não se limitar ao que está disponível ou já está dado em função da prática cultural vinda de antes da elaboração do projeto. Isso significaria alienar às necessidades a uma realidade estática.

O projeto geralmente monta uma equipe própria para a ação cultural central. No caso do exemplo que adotamos aqui, seriam os oficineiros de teatro. Mas o que é central para a ação cultural principal não é a única determinante para o projeto. Quem vai fazer a comunicação, por exemplo?

Ao identificar as necessidades, ampliamos a visão de equipe. Se não podemos contratar certos profissionais, por limitação orçamentária, quem vai assumir a responsabilidade de preparar-se para supri-las? O que significa supri-las com qualidade? Não é possível estabelecer trocas e parcerias que viabilizem esses profissionais?

Um projeto tem a equipe nuclear, mas pode ter também colaboradores e parceiros que ajudam a realiza-lo. Questão de planejamento!

Listar as necessidades infraestruturais  

Do que vamos precisar? Essa pergunta, além da equipe de trabalho, pode comportar muita coisa, como espaço físico para atividades continuadas, local adequado para apresentações, transporte, alimentação, hospedagem, computador, um aparelho celular apto a gerar boas imagens, conectividade, textos de referência, espaço para biblioteca de consulta, etc. A variação de necessidades é grande, dependendo da proposta do projeto. O importante é que tudo seja antevisto, inclusive podem ser necessárias reservas e anuências de espaço, por exemplo.

Imaginemos que no nosso exemplo da oficina de teatro os planejadores se lembrem de quase tudo que a oficina precise para acontecer na escola, mas se esqueçam que vislumbram as crianças se apresentando em outras unidades escolares e não prevejam locação de transporte. Vão ter que se arrumar de última hora, ou deixar de lado parte fundamental para repercutir o projeto e motivar as crianças: as apresentações.

Definir as parcerias necessárias

Já falamos acima da possibilidade de parcerias para suprir necessidades de equipe. Mas as parcerias não são só para a equipe, abrangem outros campos da ação e das relações do projeto. O projeto de teatro em escolas públicas, que tomamos como exemplo, necessita fundamentalmente ser parceiro da escola. Se a parceria não for efetiva do ponto de vista do conteúdo, do acompanhamento e da interação, muitos problemas podem advir na relação entre o projeto e a escola.

O parceiro tem que estar a par dos objetivos, metas e ações do projeto, e comprometido com eles. Deve estar inserido num sistema de acompanhamento e avaliação. Deve ser beneficiado pelo desenvolvimento do projeto e reconhecido pela contribuição. Parcerias podem completar a equipe, podem prover infraestrutura, podem ajudar na comunicação, nas relações com o poder público e empresas privadas, etc.

PLANEJANDO CONCLUSÃO, DESATIVAÇÃO E AVALIAÇÃO FINAL

A conclusão não fica para depois, quando se trata de planejar um projeto. Ao planejar, pensar como fazer o balanço, desativar e concluir, significa qualificar a continuidade.

Procedimentos de desativação são importantes para preservar próximos ao projeto os beneficiados diretos; manter a equipe junta e comprometida, bem como colaboradores e parceiros; preservar em boas condições arquivos e equipamentos, etc.

A avaliação bem feita tanto resulta em aproveitar as conquistas e potências do projeto como em corrigir pontos falhos. Imaginemos que no nosso exemplo das oficinas de teatro tenhamos uma antevisão de que seremos muito felizes na metodologia utilizada, que é nosso ponto forte e onde temos muita capacidade de inovação. Essa avaliação pode ser o start para propormos a criação de um e-book de difusão da experiência ao final do projeto, ou de uma sequência de vídeos, num canal no youtube. O projeto, assim, se alçaria a um patamar de referência. Planejar a avaliação final, ao projetar, significa tirar boas consequências da ação e da avaliação final, ao invés de restringi-la a uma formalidade.

De planejar bem a finalização do projeto pode depender preparar-se para captar seus vários momentos, em diários de trabalho, fotos e vídeos. No caso do nosso exemplo, teremos colhido depoimentos das crianças nas oficinas, registrado seus insights criativos, colhido impressões de pais e professores, cenas de ensaios e apresentações, etc. Repercutir uma avaliação positiva da Secretaria de Educação não pode abrir portas ao projeto? Não pode agregar mais recursos? Essa avaliação estratégica existirá se não for prevista?

O mesmo pode ser dito da prestação de contas. Por que restringi-la à formalidade das obrigações dos patrocínios? É uma obrigação correta, mas pode ser mais. No caso do nosso exemplo, como apresentar um relato, agradecer e valorizar a escola que acolheu e colaborou com o projeto? E aos patrocinadores?

Pensem nisso tudo e façam bom proveito dessa sequencia sugerida, que é facilitadora do planejamento. Nos próximos artigos, abordo ainda três temas fundamentais em projetos, nessa ordem: a redação do projeto cultural; a importância da comunicação e dicas para ajudar na busca por patrocínios.

Desejo que façam bom proveito!!