OS MAPAS ESSENCIAIS À PLANIFICAÇÃO DE UM PROJETO

No artigo anterior sobre elaboração de projetos, comentei a importância da planificação para antecipar, iluminar e dar suporte à ação cultural que será desenvolvida. Apontei o trabalho de incubação como a parte preparatória do nascimento do projeto. Nela se antevê todas as fases e necessidades de seu desenvolvimento, bem como a pós-produção, que acompanha o encerramento e acumula trunfos para um futuro replanejamento.

Sugiro que a primeira etapa do trabalho de incubação se inicie pela formulação de dois mapas: o mapa do desejo e o mapa da demanda.

Tomo a ideia de “Mapa” de Rubem Alves. O filósofo-educador diz que os mapas

“são criados para marcar os caminhos, trilhas por onde caminhar no espaço abstrato do mundo. Servem para nos levar do lugar onde estamos para o lugar onde desejamos”.

O Mapa do Desejo – organiza nossa vontade e nossa situação presente. Ao mapear nossos desejos, experiências e conquistas, organizamos uma dimensão de nós mesmos. O sociolinguísta russo Mikhail Bakhtin define por “arquitetônica” a posição que ocupamos enquanto sujeitos, o que, no caso tratado aqui – o desenvolvimento de projetos culturais – inclui nossa capacidade e modos de formar conexões, bem como a consciência de nossos limites e carências.

O Mapa do desejo deve incluir as ideias em torno do projeto, os motivos, os objetivos já imaginados, as referências estéticas, as concepções artísticas, as experiências acumuladas, o público conquistado, os contatos e parcerias que temos, mas igualmente vislumbrar os limites e déficits que percebemos.

O Mapa da Demanda organiza aquilo que esperam de nós os editais de fomento, a sociedade, a comunidade, as circunstâncias histórico-culturais, os patrocinadores existentes ou em vista, etc. É importante desde logo perceber que as demandas podem ser explícitas, latentes ou decorrentes.

Demandas explícitas são claramente colocadas. Não sendo atendidas, podem inviabilizar a aprovação do projeto em um edital, ou afastar um parceiro essencial à realização do projeto, ou desgostar um patrocinador.

Um edital pode estar nos dizendo ser importante a formação de novos públicos, ou trocas de experiências entre agentes culturais de determinados segmentos, ou a ocupação vitalizadora de espaços urbanos abertos, etc, etc. Há demandas que parceiros nos trazem: uma escola que abriga oficinas de um projeto pode colocar a necessidade de criar atividades para alunos que são problemáticos em sala de aula e necessitam ter a concentração conquistada em atividades lúdicas. Patrocinadores podem solicitar atividade cultural especialmente para clientes, etc.

Demandas latentes não são claramente colocadas. Precisamos percebê-las. Elas estão no entorno do que vamos propor. Podem existir necessidades de educação ambiental, que terão muito mais potência com tratamento artístico. Podemos estar diante de comunidades com sérios problemas de violência e envolvimento de crianças e adolescentes com o tráfico de drogas, tornando relevantes ações culturais que ofereçam outros caminhos. Déficits de leitura podem estar silenciosamente demandando atividades sedutoras e promissoras através da poesia, de grupos de leitura ou da contação de histórias.

As demandas podem, ainda, ser decorrentes de nossas próprias escolhas. Se, por exemplo, escolhemos um caminho de renovação da estética circense, precisamos pesquisar a história estética dessa linguagem e medir seus desafios contemporâneos, para traçar os caminhos. Se vamos expandir significativamente uma atividade arte-educativa, necessitaremos de atividades formativas para novos atuadores nesse sentido. Se vamos gravar e lançar um álbum de música, precisamos dimensionar sua difusão e prover o projeto de profissionais que tornem isso possível.

Os mapas, são, portanto, localizadores. Ajudam localizar a problemática cultural que envolve nossa ideia ou a ação cultural que desejamos tornar um projeto. É dessa localização, junto com a ideia que temos de projeto, que vamos partir para o plano de trabalho.

O PLANO DE TRABALHO é assunto para o próximo artigo, onde será proposta uma sequência de questões e preocupações a serem consideradas no planejamento do projeto. Até lá, que tal pensar um pouco sobre os desejos e demandas em torno do projeto que você quer estruturar? Exercite e anote. Vai ajudar muito.