A INCUBAÇÃO, PREPARO DO NASCIMENTO DOS PROJETOS

Gostaria, iniciando esse tema, de comentar a importância da incubação de projetos como política pública, no sentido de facilitar o acesso dos criadores culturais aos recursos de fomento cultural. Quero contar um pouco da experiência vivida por mim em Londrina, estruturando a incubação de projetos como um serviço prestado à comunidade.

Em 2001, iniciando uma gestão na Secretaria de Cultura, pensávamos em como construí-la com os projetos sendo a forma de tornar a diversidade das linguagens artísticas acessível à cidade como um todo. O caminho seria canalizar bem o que todos tínhamos a oferecer – nós, gestores, e os produtores culturais. Bernardo Pellegrini, inspiradíssimo secretário de cultura, soprou a ideia de montarmos uma incubadora cultural pública e viu em mim a pessoa para tocar o trabalho.

Naquele período, por essas coincidências que não são coincidências, eu lia a Divina Comédia de Dante, onde num dos círculos do inferno as almas dos perdulários e dos avarentos são constantemente arremessadas umas contra as outras, como violentas ondas, “por mal dar e por mal ter”. Pensei: esse trabalho de incubação tem que ser uma forma de superar o mal dar e o mal ter.

Montamos a Incubadora de Projetos, que começou numa mesa pequena, com bons ouvidos. Em todas as conversas, esse serviço procurou orientar uma estruturação de projetos que melhor distribuísse o processo cultural. Nos anos seguintes, a atividade ganhou dimensão e tornou-se uma vedete da gestão, porque tratou com respeito o difícil processo do planejamento e redação de um projeto. A incubação como serviço público é outridade: um diálogo com os produtores culturais, que não admite nenhuma intrusão arrogante e destruidora de expectativas por parte de quem orienta. Assim como ouvimos as dificuldades e desejos dos proponentes, eles ouviram nossas considerações e diretrizes de gestão.

O número de projetos apresentados expandiu-se. O número de novos proponentes nos editais de seleção deu um salto. Os projetos nascidos de comunidades apareceram e cresceram, graças a constantes e insistentes oficinas de orientação que realizamos nos bairros em todas as regiões, inclusive distritos rurais.

Considero a incubação como serviço público um procedimento informativo, um processo articulatório e um trabalho formativo:

– É informativo, tornando de conhecimento público os editais abertos à apresentação de projetos culturais; seus objetivos, funcionamento, prazos, prioridades de seleção, documentos de habilitação dos proponentes, etc;

– É formativo, na medida em que ensina técnicas de planejamento e elaboração de projetos, além da leitura do processo cultural que se pretende gerar com os editais e do entendimento dos potenciais sociais da cultura e das linguagens artísticas;

– É um processo articulatório, por colocar em diálogo as prioridades da gestão cultural pública com os desejos de criação e circulação dos artistas, produtores culturais e comunidades.

OS PASSOS NA INCUBAÇÃO DE UM PROJETO

Além de seu potencial como serviço público, a incubação é um processo de elaboração qualificada pelo qual cada projeto deve passar, sendo uma técnica que cada proponente pode dominar.

Para que um projeto cultural seja de fato um planejamento qualificador da ação, por onde começar? Ele começa, obviamente, por uma ideia geradora, mas o passo seguinte é a questão.

Muita gente caminha da ideia geradora para a argumentação em torno dela, partindo logo para a redação do projeto. Essa maneira geralmente decorre da inversão comum que comentei no artigo anterior publicado aqui, de reduzir o projeto, de fato, a simples argumento. Minha sugestão é começar planejando e deixar a redação para a etapa final do planejamento. Chamo Incubação à preparação planificada do nascimento dos projetos. E quero dedicar esse artigo a isso.

O trabalho de planificação antecipa, ilumina e dá suporte ao que será desenvolvido. Se há um planejamento anterior, tudo vai estar mais fácil na hora de redigir e será lastro para a futura realização.

Autores diversos lembram que o ciclo de vida de um projeto deve variar de um a dois anos e comporta seu planejamento, elaboração, desenvolvimento e pós-produção. Com isso não se diz que acaba em seguida. Ao contrário, a ação cultural deve ser replanejada para um novo ciclo. Exatamente por isso o planejamento e a pós-produção previstas são tão importantes: preparam para esse futuro ser um salto de qualidade, com experiências acumuladas, reconhecimento público e um portfólio das boas realizações disponível para lastrear a busca por patrocínios e parcerias (fotos, vídeos, páginas, mídias sociais, folders, revistas, repercussão na imprensa).

Na atividade de incubação do projeto – que corresponde a seu planejamento e elaboração – a implantação e a pós-produção – que correspondem ao futuro desenvolvimento – devem ser antevistos. Essa é a atividade de projetar.

Sugiro na incubação de cada projeto as seguintes etapas:

1- A definição de dois mapas orientadores: o mapa dos desejos e o mapa das demandas. Esses dois mapas ajudam a localizar a problemática cultural que envolve nossos desejos e as demandas culturais, sociais e de estruturação existentes em torno.

2- A projeção estruturante leva da localização proporcionada pelos mapas para um planejamento, propriamente, a partir de uma sequência de preocupações a serem respondidas, compreendendo:

  • Características, fases, pontos críticos, públicos, parcerias, e sistema de avaliação da ação cultural,
  • Estratégias e formas da comunicação,
  • Pós-produção, com avaliação final e projeção do futuro do projeto;

3) A clareza e preparação para a busca de patrocínio.

Nos próximos artigos serão tratadas cada uma dessas etapas, com orientações específicas, em detalhes. A comunicação do projeto cultural terá um artigo especialmente dedicado à sua importância.

Espero que gostem desse compartilhamento e que todos façam bom proveito!