OS PROJETOS CULTURAIS COMO ACESSO À CULTURA

Quem atua no meio artístico sabe a importância da elaboração de projetos para acessar recursos de fomento cultural, públicos ou privados. Embora o governo atual atue abertamente contra a liberdade e criticidade do meio artístico, a seleção e aprovação de projetos segue existindo no país, mesmo boicotada, porque firmou-se como forma aberta e transparente de garantir o acesso dos produtores a recursos, sendo a execução deles a forma mais efetiva de ofertar à população a diversidade artística e cultural.

E essa forma – da seleção de projetos mediante editais de fontes públicas e privadas, com regras claras e publicizadas – é a que melhor atende à democracia em relação à cultura, que emana da sociedade e deve estar aberta à sua participação e criatividade. A capacitação no planejamento e elaboração de projetos é, portanto, fundamental para garantir aos artistas, produtores culturais e comunidades o acesso a recursos.

Muita gente, entre adversários neofascistas da cultura, taxa os recursos a projetos como privilégio concedido aos artistas, construindo e acentuando o preconceito social de que eles vivem de sugar essas oportunidades. Mesmo no meio cultural, é comum artistas e produtores terem os recursos de fomento como se fossem para si e para a arte como segmento, ao invés de compreenderem que se trata do acesso social à diversidade expressiva, e que nesse sentido são trabalhadores, protagonistas e provedores.

EVITAR INVERSÕES

Quando se fala em elaboração de projetos culturais, a primeira questão é encontrar a dimensão de sua importância. Os recursos públicos ou privados destinados não devem ser vistos como favores ou benesses, mas como programas destinados ao acesso das pessoas às linguagens artísticas. Um projeto não é um álibi ou um argumento para acessar recursos, mas uma proposta planejada e organizada para prover e ofertar a cultura: para tornar a arte um bem comum.

Exatamente por esse papel estratégico e relevante, torna-se vital a capacitação na elaboração e gestão de projetos. Se esse é um caminho que sobrevive no presente e vai em direção ao futuro, é preciso traçar a caminhada por ele evitando equívocos.

O primeiro e principal engano é tratar o projeto cultural como mero argumento para conseguir recursos financeiros, não porque não se possa ou não se deva visá-los, mas porque quando esse é o horizonte o projeto acaba elaborado sem planejamento verdadeiro, como se já se fizesse suficientemente bem o que é proposto, e elaborar o projeto fosse apenas questão de “colocar as coisas no papel”.

Para efetivar-se a ação cultural deve fazer pontes entre o público e o processo artístico e cultural, o que exige estudos, planejamento e agentes culturais preparados. Portanto, mesmo em se tratando de algo que já esteja em desenvolvimento, um projeto serve como desafio para superar limites, ampliar horizontes, qualificar a ação cultural e atender aos objetivos maiores de acesso público à diversidade criativa.

UMA BOA IDEIA NÃO É UM PROJETO

É comum o proponente de projetos ter uma ideia ou uma ação cultural promissora e considerá-las, em si mesmas, merecedora de aprovação em processos de seleção. Uma boa ideia e uma boa prática não são projetos! A ideia é a semente que inspira o nascimento do projeto. A boa prática é uma sustentação fundamental a ele, mas se ele não corresponde a ambas, não indicará o que é proposto fazer e possivelmente não passará pelos filtros da seleção.

Ao longo de muitos anos trabalhando com orientação à elaboração e com análise de projetos  –  e convivendo com a frustração daqueles cujos projetos não são selecionados nos editais – constatei o quanto é comum o proponente querer explicar depois o que estaria querendo dizer no projeto, quando este “querer dizer” não estava lá. Num processo de análise, não é o proponente que fala pelo projeto, mas o projeto que fala pelo proponente.

No acompanhamento a projetos aprovados, vi e vivi muitos deles não resistindo aos filtros da realidade, porque a elaboração tinha parâmetros interessantes, mas diagnósticos e experiências frágeis levavam as equipes a sofrerem na execução. Para evitar a generalidade nos objetivos, a dispersão de esforços sem obtenção dos resultados esperados, a falta de conexão entre os desejos e a realidade contextual e contradições entre as metas e o tempo previsto para atingi-las, é importante projetos bem planejados, com conhecimento, estratégias competentes, equipe preparada, parcerias e sistema de avaliação.

Vou publicar, no Luminares uma sequência de textos orientando a elaboração de projetos, compartilhando minhas pesquisas e experiências em orientação e  gestão. Desejo que esse compartilhamento renda os melhores frutos. Já antecipo aqui os temas dos próximos textos, em sequência, para facilitar o acompanhamento dos interessados:

– A incubação como preparo do nascimento de um projeto;

– Os mapas que orientam ao projeto: o do desejo e o da demanda;

– Quesitos que estruturam um projeto;

– A redação final do projeto;

– A importância da comunicação nos projetos culturais;

– A pós-produção de um projeto como elemento de qualificação e continuidade;

– Nortes e cuidados na busca por patrocínio a projetos.

Arte dessa publicação com foto de Valéria Felix