RETALHOS DE CARNAVAL

Chegou o carnaval. Os blocos nas ruas. Os desfiles na boca da avenida. Será como deve ser nos dias correntes, um carnaval com crítica ao autoritarismo, ao preconceito e ao ódio que querem impedir as pessoas de serem o que são. Critica aos abusos. Critica à destruição do ambiente. Voz pelo direito ao conhecimento e à festa.

O carnaval é maior do que nossos olhos veem e mesmo do que nosso coração sente, embora ver e sentir sejam fundamentais para qualquer entendimento dele. Publico aqui três retalhos de carnaval, apanhados da literatura onde grandes escritores e poetas se debruçaram sobre ele. São percepções profundas, que dão sua dimensão como cultura e como estética.

Muita coisa ficou de fora, claro, como um convite para que sejam juntadas, tendo outras cores e vindos de outras vozes, como se estivéssemos compondo um patchwork, num trabalho conjunto com retalhos. Ou como numa festa de carnaval, com nossas fantasias e alegorias…

I – BAKHTIN DÁ A DIMENSÃO ESTÉTICA DO RISO POPULAR

Na década de 1940, Mikhail Bakhtin buscava tornar-se Doutor dentro das ciências da linguagem e apresentou ao Instituto de Literatura Mundial Gorki a tese intitulada “Rabelais na História do Realismo”. Não conseguiu o título, porque a banca julgadora evitou avaliá-lo, temendo sair dos rumos impostos pelo regime stalinista. Só em 1965 Bakhtin conseguiu publicar o estudo, hoje tido como um das mais pujantes obras da literatura acadêmica sobre cultura e linguagem, com o título “A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais”.

O fundamental, revelador e inusitado deste estudo é ter por base a importância do riso como forma estética da cultura popular, em oposição ao sério, ao oficial, ao religioso impositivo da cultura feudal. Bakhtin chamava essas manifestações por “cultura carnavalesca popular”, presente tanto no carnaval quanto nas feiras, nos festejos e nos cortejos públicos.

Gigantes e anões, monstros, animais sábios, bufões, “reis e rainhas para rir” escolhidos pelo povo animavam essas festas carnavalizadas. Bakthim vê a cultura popular acentuada pelos elementos do jogo, das formas animadas e teatralizadas, do riso jocoso, da fantasia e da linguagem grotescas, que são as formas do carnaval, onde são poucas as fronteiras que separam a arte da vida e onde uma está a favor da outra.

O riso carnavalesco é em primeiro lugar patrimônio do povo, diz Bakhtin. É um riso universal, aberto a todas as coisas e pessoas, como uma cultura comum, “cheio de alvoroço, mas ao mesmo tempo burlador e sarcástico”, dirigido contra toda pretensa superioridade. É um riso que se expressa diante das coisas do mundo.

Esse forte elemento estético ele percebeu na literatura de François Rabelais, especialmente em “Gargântua e Pantagruel”, cuja versão primeira foi publicada em 1534. Bakhtin vê Rabelais como o “o mais democrático dos mestres da literatura”, cuja qualidade em relação aos demais escritores do renascimento, como Cervantes e Shakespeare, é estar mais profundamente ligado às fontes populares: as feiras, os diálogos da cotidianidade e da vida familiar, os festejos, as comilanças e bebedeiras. Elas que determinam sua estética e seu sistema de imagens. É a partir do caráter não-canônico, que foge do oficial e não persegue a formalidade, que se encontra o valor de Rabelais.

Bakhtin considera Rabelais a fonte do romance moderno, que abarca a polifonia de vozes, dando vida a personagens variados. A linguagem carnavalizada, portanto, está na origem da literatura que conhecemos hoje. A grande percepção do sociolinguísta russo foi elaborar que o riso próprio da festa popular, presente na criação de Rabelais, de um elemento cotidiano tornou-se elemento cultural significativo, porque abarcou a vida social, elevando-se a uma relação ativa do homem popular com a história e com a expressão artística. A contribuição espetacular de Bakhtin, até hoje muito ignorada, é ver que o riso popular, carnavalesco, é o único que corresponde ao tempo alegre, que anuncia o futuro.

Encerro o primeiro retalho de carnaval dando como exemplo o recado que Rabelais escreveu ao leitor em Gargântua e Pantagruel:

Antes mesmo de ler, leitor amigo,

Despojai-vos de toda má vontade.

Não escandalizeis, peço, comigo:

Aqui não há nem mal nem falsidade.

Se o mérito é pequeno, na verdade,

Outro intuito não tive, no entanto,

A não ser rir, e fazer rir portanto,

Mesmo nas aflições que nos consomem.

Muito mais vale o riso do que o pranto.

Ride, amigo, que rir é próprio do homem.”

II – BRECHT VIU NO CARNAVAL O TERMÔMETRO DO TEMPO NOVO

Tenho como gosto pessoal que a mais interessante das peças de Bertolt Brecht é “Vida de Galileu”, o que talvez esteja em desacordo com o próprio Brecht, que chegou a recriminar a si mesmo nos “Diários de Trabalho”, porque considerava ter conferido ao personagem de Galileu uma carga exagerada de empatia, o que dificultava ao público julgá-lo, sendo esse julgamento um dos fundamentos do seu teatro épico.

Brecht terminou em 1938 a escrita inicial da peça e fez revisões posteriores. O ponto central do incômodo que tinha com o trato ao personagem partia de que as descobertas astronômicas de Galileu haviam interessado imensamente à população, porque contrariavam, comprovadamente, as doutrinas da igreja, das quais ela se servia para justificar a autoridade de seu poder severo e a ordem feudal. Para o dogma religioso, era importante a terra estar no centro do universo, já que o homem era a imagem de Deus e a igreja, a intérprete do divino, estava no centro do poder. Pela imponência severa desse poder, havia naquele tempo um regramento e um sofrimento dos quais a população queria alívio.

Num determinado momento da peça está representado o carnaval de 1632. A demonstração de Galileu da rotação da terra em torno do sol havia se popularizado e a astronomia virado tema dos desfiles carnavalescos. Brecht põe na cena o modo como as novas descobertas se tornavam assunto comum e traziam consigo um inusitado sentimento popular de liberdade. Na cena de carnaval, artistas mambembes fazem na rua um jogral, comentando as novidades e o significado delas; o que poderia ser desbancado e o que poderia surgir:

O colono chuta os búndios

Do senhor dos latifúndios

E a empregada do chiqueiro

Come carne o ano inteiro.

Não, não, não minha gente! A Bíblia não é brinquedo!

Se o cabo não é grosso, moço, não prende o pescoço, e adeus civilização!

Pois vamos ser francos, somos brancos, temos conta nos bancos:

Passar mal e passar bem, ser mandado e ser mandão, que desproporção!

O teatrólogo Brecht provavelmente não conhecia o texto do sociolinguísta Bakhtin, o que não o impediu de ver o ambiente libertário do riso carnavalesco como termômetro da consciência popular e no ambiente do carnaval o sentimento de um novo mundo no horizonte, liberto dos dogmas.

O quanto essa consciência popular, carnavalesca, sobre as novas descobertas astronômicas era importante? Era por essa importância que Brecht se mantinha tão crítico em relação a Galileu. Fecho meu segundo retalho carnavalesco com as palavras escritas por ele em abril de 1944 no Diário de Trabalho:

A população se interessava pela astronomia de Galileu porque sofria sobre domínio da igreja. Galileu pôs em perigo o verdadeiro progresso científico quando se retratou, decepcionou o povo, a astronomia voltou a ser apenas outro tema científico, domínio dos especialistas, apolítica, isolada. A igreja separou os “problemas” do céu e da terra, consolidou seu domínio e depois acatou as novas soluções sem qualquer outra objeção.

III- MÁRIO DE ANDRADE FOI AO CARNAVAL LAPIDAR OS OLHOS

O ano era 1923. O poeta paulista Mário de Andrade acabara de passar pela experiência de conhecer o carnaval do Rio de Janeiro por dentro, literalmente se perdendo nos rodopios do povaréu nas ruas. Ainda em fevereiro, envia ao amigo Manoel Bandeira uma carta falando da criação de um poema com o título de “Carnaval Carioca”, cuja primeira versão envia-lhe em 22 de abril, para discutirem algumas sugestões aos versos.

É um poema ao mesmo tempo de arrebatamento e tessitura. Arrebatamento pelo que, no carnaval, lhe saltava das ruas para os sentidos e tessitura por uma elaboração sobre a cultura que o carnaval lhe revelava.

O poeta confessa ao Carnaval:

“Eu mesmo… Eu mesmo, Carnaval

Eu te levava uns olhos novos

Para serem lapidados em mil sensações bonitas…”

Mário é modesto, porque seus olhos curiosos também tinham a oferecer uma compreensão do carnaval como momento democrático, onde a rua soma os turistas e os cariocas, filhos e criadores da festa. Essa compreensão de mostrar o carnaval nas ruas como uma experiência única, mostra sua força para o convívio do diferente. A convivência que precisa da festa, como um encontro e encantamento maior que os cotidianos preconceitos:

Carnaval…

A baiana se foi na religião do Carnaval

Como quem cumpre uma promessa.

Todos cumprem sua promessa de gozar,

Explodem roncos roucos trilos tchique-tchiques

E o falsete enguia esguia rastejando pelo aquário multicor,

Cordões de machos mulherizados,

Ingleses evadidos de pruderie,     

Argentinos mascarando a admiração com desdéns superiores

Degringolando em lengua-lenga de milonga,

Polacas de indiscutível índole nagô,

Yankees fantasiados de norte-americanos…

Coiozada emproada se aturdindo turveando

Entre os carnavalescos de verdade

Que pererecam pararacas em derrengues maneios cantigas…

O que acontece no turbilhão do carnaval brasileiro, em termos culturais, Mário definiu bem, como “transporte em realidades superiores da mesquinhez da realidade”. Mas também como um encontro com o Brasil que a cultura dominante se recusa a admitir:

Embaixo do Hotel Avenida, em 1923

A mais pujante civilização do Brasil

Os negros sambando em cadência.

Tão sublime, tão África!

Ao poeta Mário, o carnaval das ruas provocou uma sensação que ele definiu como a de estar bailando num poema multicolorido. O final de Carnaval Carioca é de uma boniteza rara: a sensação do poeta depois de cair na folia:

Lentamente se acalma no país das lembranças

A invasão furiosa das sensações.

O poeta sente-se mais seu.

E puro agora pelo contato de si mesmo

Descansa o rosto sobre a mão que escreverá.