A CIÊNCIA, PRAZER NEGADO ÀS CRIANÇAS?

Vivi a infância e adolescência num sítio do interior paulista, na divisa de dois municípios, Ubirajara e São Pedro do Turvo, cidades muito pequenas, que ainda hoje não chegam a 10 mil habitantes. Uma peculiaridade do sítio, no período dessa infância, era não ter fornecimento de energia elétrica. Lá tínhamos luz e geladeira a gás e TV funcionando com energia vinda da bateria dos tratores.

O lugar e essa circunstância proporcionavam uma visão noturna do céu sem interferência das luzes da cidade. Um céu limpíssimo, salpicado de estrelas e asteroides. Para minha imaginação, era um fascínio, um prato cheio. Identificar o Cruzeiro do Sul e saber que era um localizador dos navegantes e exploradores; ver quem “achava” primeiro as Três Marias alinhadas no céu, que só muito depois soube que formavam o cinturão da constelação de Orion; poder observar aquele caminho esbranquiçado formado pelo cinturão de asteroides, que lá no sítio a gente chamava de “caminho de leite”. Observar “estrelas cadentes” e fazer pedidos…

Esse fascínio carrego comigo. Busco constantemente notícias e matérias sobre astronomia e novas descobertas dos telescópios e da ciência. Sou – tomando uma definição da fina inteligência de Roland Barthes – um amador. Tanto no sentido do amor quanto no apego a essa ciência, sem tê-la como um desempenho1. É como amante distanciado da astronomia e atuante da cultura que penso em como as crianças são afastadas do gosto pelas descobertas da ciência. São afastadas desse prazer de amador, que é o melhor dos inícios para qualquer pesquisa, para o conhecimento e eventualmente para a profundidade do caminho profissional.

Numa única manhã dou uma passeada por alguns sites. O site da revista Galileu tem uma seção com matérias sobre astronomia. O tratamento jornalístico permite que qualquer criança em idade escolar possa entender os assuntos. Uma delas fala de um pequeno meteorito onde os cientistas descobriram grãos pré-solares, que são pedaços de matéria interestelar formada – pasmem – antes do surgimento do sol. A cientista Olga Pravdivtseva usou a expressão “foi lindo” para descrever a descoberta que fizeram desses grão e seus compostos, ao perceber que puderam resistir a condições de temperatura como as do nascimento do sol, em sentido literal.

Outra matéria na Galileu abordou o trabalho de cientistas que descobriram como transformar a poeira da lua em oxigênio respirável e estão agora trabalhando num protótipo de usina nesse sentido, algo que poderá ser essencial num futuro não tão distante, para suporte a missões espaciais e outros projetos vitais ao ser humano.

Depois fui ao site da NASA. Usando o tradutor pude ler as matérias com compreensão mais que satisfatória. Uma delas falava do fim de carreira do telescópio espacial Spitzer, da Nasa, contanto a trajetória de descobertas que ele tornou possível em seus 16 anos prospectando o universo a partir da luz infravermelha, revelando segredos da nossa galáxia, e de além dela. Entre esses segredos, um anel de Saturno, antes “invisível” para nós, foi detectado, assim como dados importantes sobre a formação de planetas e de estrelas, inclusive detecção de planetas que podem ter condições semelhantes as da terra para a existência de vida.

Nesse passeio, fiquei pensando na curiosidade que as crianças têm. Em como se divertiriam podendo pesquisar e conversar sobre esses temas. Em trocar o que sabem umas com as outras sobre o universo. Em, quem sabe, poderem observar o céu usando um telescópio.

As razões porque as pesquisas astronômicas não estão no cotidiano escolar não estão relacionadas ao desinteresse ou dificuldade de entendimento do assunto. Nem há dificuldade de acesso a ele, já que o tema circula na ficção que atrai imenso público e, do ponto de vista científico, está disponível amplamente. São questões diretamente culturais que afastam as descobertas astronômicas da escola, e são obscurantistas.

Uma delas é que nosso modelo educacional está afastado do prazer pela pesquisa. Não falo aqui só da pesquisa de ponta, mas do modelo e caminho de acesso a todo conhecimento: a prospecção que se faz em torno de algo para conhecê-lo melhor. Quanto mais isso seja um elemento do processo educativo, melhor.

A pesquisa tem um componente humano, estético e cultural renegado quando a educação é instrumentalizada e funcionalizada para o mercado profissional. Esse elemento é o prazer, que se traduz pelo interesse, pela escolha curiosa da investigação. Como o Galileu de Bertolt Brecht, nossas crianças e nós mesmos podemos ter prazer em descobrir, em pensar, em debater. “Pensar é um dos maiores prazeres da raça humana”, sustenta o personagem de Brecht2, do mesmo modo que a cientista Olga considera ter sido “lindo” descobrir segredos do universo no pedaço de meteorito.

Outro que tolhe a curiosidade astronômica é o dogma religioso. A presença desse dogma tem duas dimensões: uma de longa duração, que atravessa os séculos como uma presença sólida e silenciosa, fazendo de conta que o mundo tem modelo ptolomaico, que a terra está no centro do universo e que vivemos num universo de mal resolvida temporalidade bíblica. Para não mexer nisso, é preciso desviar da astronomia a curiosidade das crianças.

O bolsonarismo não se contenta que o dogma religioso no Brasil seja só essa presença rochosa e silenciosa pesando na cultura escolar: quer renegar a escola como espaço de ciência para impor o dogma religioso como fundamento. Para isso usa vários artifícios, como enfraquecer o papel dos professores de gerar conteúdos críticos, alegando que a educar é responsabilidade dos pais. Ou relativizando o “evolucionismo” em favor do “criacionismo”, como se tudo fosse uma questão de escolher um conceito, renegando as descobertas científicas.

Essa cultura que quer negar às crianças o acesso à ciência lembra a frase com que Bakthin definia a ciência desumanizada: “O pensamento que, como o peixe dentro do aquário, toca o fundo e as paredes,  não pode ir mais longe nem mais fundo3. Para ir mais longe e mais fundo, o direito ao pensamento e a pesquisa tem que ser retomados e estendidos às crianças, como parte dos fundamentos de ciência e da educação democrática.

1- Roland Barthes por Roland Barthes, Editora Estação Liberdade.

2- Da peça Vida de Galileu, de Bertolt Brecht, Editora Paz e Terra.

3- Do texto Observações sobre a epistemologia das ciências humanas, de Mikhail Bakhtin, no livro Estética da Criação Verbal, Editora Martins fontes.