POR QUE PAULO FREIRE INCOMODABOLSONARISMO?

Uma obsessão do governo Bolsonaro – e do séquito – é diminuir e “banir” Paulo Freire como referência em educação.

Ainda em 2017, o Movimento Escola Sem Partido protagonizou um abaixo-assinado on line dirigido ao Senado Federal, para gerar projeto de lei retirando do educador o título de “Patrono da Educação Brasileira”, que foi adotado em 2012.

Então candidato, em 2018 Jair Bolsonaro usou uma de suas “figuras de linguagem” e disse que, se eleito, entraria “com um lança chamas no MEC para tirar Paulo Freire lá de dentro”. Completou o raciocínio dizendo que “hoje os alunos não sabem fazer nem regra de três, não sabem nada de física, química e matemática. Por outro lado eles defendem que tem que ter senso crítico”. Bolsonaro concluiu que “educação tem que ser mais objetiva”(realces meus).

Já no exercício da presidência, no final de abril, falou para ruralistas na abertura de uma feira agropecuária em Ribeirão Preto-SP, prevendo enviar ao Congresso projeto de lei com objetivo de mudar o patrono da educação. Quer retirar de Paulo Freire o título.

O mais recente ataque desferido contra a figura do educador por Bolsonaro foi classificá-lo por “energúmeno”, agora em meados de dezembro, numa de suas declarações ao sair da residência oficial do Palácio da Alvorada, sempre de passagem, propositalmente para não dar satisfações sobre os conteúdos. Nessa ocasião, atacou também a programação da TV Escola como “esquerdista” e atribuiu a tal orientação o baixo desempenho da educação brasileira, em balanço divulgado recentemente pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes – PISA.

Os sentidos de “energúmeno”, seja como “endemoniado”, “fanático”, “desnorteado” ou “agressivo”, não combinam com a placidez e gentileza comuns aos escritos, entrevistas e relatos de convívio relacionados a Paulo Freire. Já com Bolsonaro combinam… O fato é que tanto empenho em atacar o educador torna inevitável perguntar: O que há de tão perturbador em Paulo Freire para Bolsonaro e o bolsonarismo?

A resposta à pergunta demanda entender que há interesse intenso do bolsonarismo em interferir na cultura, caracterizando a crise educacional perante a opinião pública como responsabilidade dos conceitos de Paulo Freire. Essa caracterização tem na agressividade difamatória seu ponto de afirmação.

Ao observar a agenda de falas de Bolsonaro, facilmente se percebe que ele dá preferência a assuntos aparentemente comezinhos do que aos tidos como prioritários na chamada “agenda econômica e política”. Prefere comentar comportamentos de professores, ou suspender uma propaganda do Banco do Brasil baseada na diversidade cultural, ou atacar uma figura simbólica como Paulo Freire.

É equívoco focar esse comportamento como fruto de despreparo ou desinteresse em governar, como costuma aparecer nas críticas pontuais que lhe dirigem comentaristas da grande mídia e memes que circulam em redes sociais. Bolsonaro segue uma cultura de angulação da crise social, não como algo que nasça da desigualdade econômica ou da desatenção às condições de cidadania. Ele a foca como crise de valores e propõe medidas com pretensões práticas, como o esvaziamento de conteúdos críticos e, no terreno disciplinar, a militarização das escolas.

A educação crítica é tratada como algo que atrapalha o preparo das pessoas para um trabalho ou função, e que não servem para nada: são “ideologia”. Políticas afirmativas e inclusivas relacionadas a negros, índios, mulheres e homossexuais são tratadas como se ferissem a igualdade de oportunidades e a solução de problemas, favorecendo grupos e solapando direitos dos “cidadãos de bem”. O seu público é o senso comum.

A política de cotas estaria privilegiando negros, em detrimento do mérito nos vestibulares. Estariam demarcados como territórios indígenas e quilombolas, segundo Bolsonaro, mais de 15% do território nacional, enquanto menos de um milhão de pessoas viveriam nesses territórios. “Isolados do Brasil de verdade”, índios devem ser ‘integrados” para “valorizar todos os brasileiros”, ao invés de serem “manipuladas por ONGs”. O apelo a “todos os brasileiros” é constante para contrapor políticas protetivas e inclusivas.

O viés de atuação cultural do bolsonarismo é acentuado: trabalha a ideia de cortar compromissos sociais do estado, como se fossem gastos excessivos, perdulários, fora de função e geradores de desigualdade. Junta a isso juízos morais ligados a um senso comum moral e religioso: as escolas estariam ensinando a desobediência; o ensino de gênero seria estímulo à homossexualidade e deturpação da feminilidade e assim por diante.

Nessa cruzada cultural, aponta como inimigos a esquerda, o “marxismo cultural”, o feminismo, o movimento negro, os ambientalistas e Paulo Freire, sempre como algo que é preciso repelir. Tratar o bolsonarismo como uma desinteligência em relação a um ideal civilizatório é correto, mas geralmente nos leva a um embate do tipo bate-boca incidental com adversários, onde registramos sua ignorância. Mas anda nos escapando a verdadeira organicidade cultural da disputa: uma disputa pela opinião popular.

O estilo bate-boca de embate deixa escapar que o bolsonarismo está falando ao senso comum de milhões de pessoas, a partir de um projeto de poder. Em entrevista recente ao colunista Chico Alves, do UOL, o pastor Silas Malafaia apresentou um cálculo interessante, segundo o qual Bolsonaro tem apoio de 70% do mundo evangélico, que totaliza 60 milhões de brasileiros. Portanto, 42 milhões apoiariam Bolsonaro.

Malafaia completa o raciocínio: “O segmento que mais usa a redes sociais são os evangélicos. Pelo menos uma vez por semana, o evangélico está na igreja, tem uma interação pessoal. Isso tem uma força tão grande, tão louca. É só dizer: ‘Bolsonaro está pedindo ajuda’ e os evangélicos ajudam”. O que Malafaia revelou na entrevista é na verdade um mapa da atuação cultural orgânica do bolsonarismo, onde plantam suas visões de mundo para uma plateia ao mesmo tempo disposta a ouvir e assimilar pontos de vista, principalmente calçados no moralismo religioso.

BOLSONARISMO E NEOCONSERVADORISMO

De resto, é importante ter em conta que essa disputa cultural não é um caso isolado brasileiro, ainda que aqui seus contornos aqui sejam espinhosos. Há, no panorama internacional, o fenômeno que Jürgen Habermas chamou de neoconservadorismo.

Habermas localizou nos anos 1950, nos EUA e Alemanha, o nascimento da orientação neoconservadora, inclusive com pretensão intelectualista. São valores compondo uma maneira de ver e tentar enquadrar a sociedade industrial ocidental. Essa tendência entende e defende como modernidade econômica as privatizações e a diminuição drástica da participação social do estado, ao mesmo tempo que repele a modernidade cultural como profana, subversiva e ideológica, em favor de uma obediência e disciplina ancoradas na religião.

Conforme observou Habermas, o neoconservadorismo se inquieta com as propensões que estendem a democracia aos direitos humanos e a diversidade cultural, aí entendidas as questões de gênero, de igualdade racial e de participação da população de menor renda na vida econômica, social, educacional, cultural e política. Mais do que isso, atacam-nas e tentam identificá-las como causas de crise e de perda de autoridade moral e institucional.

Os neoconservadores são arredios a uma vida popular ativa. Desejam da população uma produtividade obediente, onde o aprender das pessoas significa ajustar-se ao que está posto, como se a realidade em sentido maior fosse independente deles, permanecendo sempre a muleta religiosa para abordagem do que seja difícil alcançar.

O bolsonarismo, se por um lado tem evidente carência de intelectuais com capacidade analítica, como a tinham os precursores do neoconservadorismo identificados por Habermas, por outro é forte na capacidade de atuar organicamente na cultura, pela unidade conseguida junto ao segmento evangélico e a grupos católicos acentuadamente conservadores. É uma tentadora ironia dizer que o bolsonarismo é o braço armado do neoconservadorismo, pois faz o trabalho de convencimento sem qualquer pudor por uma ética do conhecimento e da informação.

 PAULO FREIRE E UMA TEORIA DO CONHECIMENTO

Localizado o contexto a partir do qual o bolsonarismo investe contra Paulo Freire, como contexto de disputa e afirmação cultural, podemos voltar a Paulo Freire e colher de seu pensamento um modo de ver e agir culturalmente, que vai em sentido oposto ao bolsonarismo e o revela.

Começo pela visão de Paulo Freire sobre educação, como um trabalho difícil (“Ação cultural para a liberdade”), exigente de uma postura crítica sistemática, que só pode ser adquirida com prática constante, em oposição ao que chamou de “educação bancária”, aquela que “mata a curiosidade, o espírito investigador, a criatividade”. A educação bancária propõe o “aprendizado” como uma disciplina rebaixadora. Ao dispensar a criticidade se torna passiva diante do texto e troca o estudo pela formalidade.

Paulo Freire via na vida escolar a presença da educação bancária como uma cultura arraigada, negativa. E quase todos os seus escritos são um contraponto a isso. Uma tentativa de caminhar para a educação crítica. Em contraponto aos ataques de Bolsonaro contra Freire, a pedagoga Ana Maria Araújo Freire, viúva de Paulo e ganhadora do Prêmio Jabuti pela biografia do educador, concedeu entrevista em 16 de abril a “O Globo”, e fez duas considerações interessantes.

A primeira foi que Paulo Freire não criou uma técnica de alfabetização, mas uma teoria do conhecimento, impulsionado pelo sentimento de que a elite brasileira alimentava uma visão de casa grande, e não queria a apropriação/criação popular dos processos do saber. Paulo Freire projetou sua teoria antes do golpe militar de 64, como uma possibilidade a ser perseguida no país, então governado por João Goulart.

A segunda consideração da biógrafa foi que a pedagogia de Paulo Freire nunca foi implementada no Brasil, porque o golpe militar desmantelou essa possibilidade e ela não foi retomada, nem mesmo quando, depois, o educador foi secretário municipal de educação em São Paulo, pois ele não impôs aos educadores seguirem sua metodologia. E não acreditava em imposições.

Não temos, portanto, no país, de modo algum, uma educação paulofreireana implantada. Ao contrário, apesar de haver parâmetros curriculares aprovados que podem ter confluência com a visão do educador, não significa que temos uma cultura escolar que produza conhecimentos a partir deles. Seria interessante se houvesse um estudo sério que analisasse a maior parte das práticas escolares, comparativamente aos parâmetros curriculares. O mais provável é que a criticidade e a visão paulofreireana apareçam como minoritárias e honrosas exceções.

O que irrita o bolsonarismo é que Paulo Freire, com sua teoria do conhecimento, responde, revela e critica antecipadamente o modelo que Bolsonaro defende. Nessa teoria, o conhecimento é uma procura que relaciona as coisas lidas e estudadas ao ambiente histórico. Portando, estudar é responder, em primeiro plano, a uma curiosidade despertada, que vai relacionar, recriar e reescrever o que se está conhecendo. Como disse o educador, “tarefa de sujeito e não de objeto”.

De quem está na escola, o bolsonarismo quer que aprenda o que é posto diante dele, criado à sua revelia e distante de sua realidade e das inquietações a possa ter e querer responder. Não há portanto, problematização, que é princípio de pesquisa, ciência e conhecimento. O modelo bolsonarista é de desestímulo.

Na visão de Paulo Freire, a aquisição de conhecimentos é guiada por temáticas que preocupam e ocupam os envolvidos em conhecer. A partir delas busca-se referências informativas e textos de reflexão, ligados de forma direta, ou comparativa, ao que é pesquisado. “O ato de conhecer é uma atitude frente ao mundo”, disse.

A proposta de educação militarizada de Bolsonaro parte da herança cultural da educação bancária – que é hoje a amplamente praticada no Brasil – e tenta compensar o fracasso dela com um reforço de submissão à autoridade formal. É uma proposta que só pode funcionar dentro do modelo de condicionamento, não como atitude de conhecimento.

ASSUNÇÃO CULTURAL

Paulo Freire via a busca pelo conhecimento como assunção cultural das classes populares, pela atitude individual de buscar alfabetizar-se e conhecer, mas sobretudo como uma prática coletiva, quando na educação se busca “propiciar as condições em que os educandos em suas relações uns com os outros e todos com o professor ou a professora ensaiam a experiência profunda de assumir-se” (Pedagogia da Autonomia). Para ele, uma educação onde os educadores buscam conhecer une individualidade e coletividade num sentido socialmente consciente, de “assunção de nós por nós mesmos”.

A ideia freireana do processo educacional como assunção cultural tem como fundamento a prática democrática na vida escolar, onde sejam levadas em conta as experiências, referências  e inquietações dos estudantes e onde cada gesto do educador conta para incentivá-los, ou não. Por isso, diz o educador, “a aprendizagem da assunção do sujeito é incompatível com o treinamento pragmático ou com o elitismo autoritário dos que se pensam donos da verdade e do saber articulado”.

Na maneira de Paulo Freire conceber o conhecimento, a leitura de mundo é a movimentação que envolve todos, docentes e discentes, constantemente. Ele observa que é preciso reconhecer que a leitura de mundo precede a leitura da palavra, em cada pessoa, desde criança, como aprendizagem da vida, do ambiente e da cultura. E deve estender-se no processo de leitura da palavra, relacionando texto e contexto. Disso dependendo todo caráter relacional, científico e questionador do conhecimento. A leitura de mundo não é só um método de alfabetização, mas um pressuposto de ciência, que abre janelas para todos os conhecimentos, sejam mais espontâneos da vivência e da tradição popular, sejam mais apurados e sistematizados em instituições de ensino e pesquisa. É a ponte entre o “saber ingênuo e o saber rigoroso”, nas palavras do educador.

Paulo Freire desejou que a escola não apagasse, por imposição de temas, de regras, de comportamentos e de silêncio, o que as crianças trazem de sua casa, de seu bairro, do convívio com outras crianças, do que ouvissem, do que assistissem, do que desejassem saber. Quis que as escolas os referenciassem, que os ajudassem a comparar, que lhes indicassem caminhos e materiais de pesquisa e ajudassem a crescer a partir dessas leituras curiosas.

ORGANICIDADE NA EDUCAÇÃO PELOS DIREITOS HUMANOS

Uma filosofia do conhecimento e uma metodologia educativa baseada em Paulo Freire é algo a se construir, ainda. E atualmente algo a se construir opondo-se ao neloliberalismo fascistizante que vem com o bolsonarismo e faz constantes ameaças à liberdade escolar.

Em junho de 1988, Paulo Freire proferiu uma rápida palestra na Faculdade de Direito da USP, num ciclo sobre Direitos Humanos, tendo como público principalmente estudantes de direito. O tema foi “Direitos Humanos e Educação Libertadora”. Ele foi bastante enfático no que via como essa abrangência:

“… Direitos Humanos, direitos básicos, o direito de comer, o direito de vestir, o direito de dormir, o direito de ter um travesseiro e à noite colocar a cabeça nele, pois esse é um dos direitos centrais do chamado bicho gente, é o direito de repousar pensar, se perguntar, caminhar; o direito da solidão, o direito da comunhão, o direito de estar com, o direito de ser contra; o direito de brigar, falar, ler, escrever; o direito de sonhar, o direito de amar”.

Foi igualmente enfático ao recomendar o engajamento dos educadores nesse sentido como abrangendo todo espectro da educação, “não importa que ele seja um professor de direito penal ou que seja uma professora de pré-escola. Não importa que seja um professor da pós-graduação da filosofia da educação ou uma professora de biologia, ou matemática, ou física”, todos devem acolher essa ideia dos direitos humanos como parte de uma “politicidade educativa”.

Tal politicidade, Paulo Freire a definiu assim: “A educação para os direitos humanos, na perspectiva da justiça, é exatamente aquela educação que desperta os dominados para a necessidade da briga, da organização, da mobilização crítica, justa, democrática, séria, rigorosa, disciplinada, sem manipulações, com vistas à reinvenção do mundo, à reinvenção do poder”.

A politicidade que Freire recomenda, vejo como uma organicidade cultural que não dispensa as redes sociais, mas não pode ficar presa nelas em estéreis bate-boca e postagens que são mais desabafo que construção. Ela pede que se pensem práticas e projetos de educação criativos; que se comuniquem essas práticas; que se construam fóruns de trocas e que se converse com as famílias e comunidades, de dentro dessa construção positiva. Contra uma organicidade bolsonarista, nada como uma organicidade paulofreireana. Uma organicidade pela ciência voltada aos direitos humanos.

Valdir Grandini é jornalista, consultor e gestor cultural e pesquisador de interfaces entre educação, cultura e comunicação.