O PONTO PARA LERMUNDO

Em artigo recente no LUMINARES, escrevi sobre a importância de gerar e fomentar programas de leitura, dando à leitura uma dimensão própria ao século XXI, abrangendo além da literatura, da poesia e da linguagem verbal, também a leitura da cotidianidade urbana, da política, da economia, das redes sociais, dos quadrinhos, do teatro, das séries, do cinema, dos vídeos, do rádio, dos podcasts, da publicidade. Enfim, uma leitura de mundo envolvendo a produção, difusão e convergência midiática tornadas possíveis pelas novas tecnologias da informação e pela internet.

Citei no artigo que uma mobilização profícua dessa leitura inter linguagens desencadeia processos criativos que promovem assunção cultural das pessoas que vivem a experiência. Finalizei prometendo exemplificar com casos que acompanhei, o que retomo agora, nesse novo texto.

Como em anos de relação com projetos culturais arte-educativos vi muitas experiências nesse sentido, escolhi tratar nesse novo texto de uma que vivenciei diretamente, tendo conhecimento dos detalhes de concepção e execução, o Ponto Para Ler o Mundo.

Em Ourinhos, cidade do interior paulista, de 2009 até 2012 participei da gestão cultural como responsável por programas e projetos. Em 2011 e 2012, desenvolvemos com recursos casados do município, da Secretaria de Estado da Cultura e do Ministério da Cultura o projeto Ponto Para Ler o Mundo, baseado no conceito paulofreireano de que todas as pessoas, desde a infância, leem o mundo cotidianamente: o tempo e as coisas da natureza, o tom das vozes, as noções de perigo, de certo e de errado, etc. Aprendem na vida familiar, no contato social e na observação e interação com todas as coisas.

Paulo Freire desejava que a alfabetização, o letramento e todo conhecimento organizado não desprezassem as leituras de mundo, mas dialogassem com elas e as potencializassem. Desejava que a leitura textual não desvinculasse os textos lidos e os contextos vividos, ou aos quais os textos remetessem, o que, infelizmente ele diagnosticava que acontecia na cultura escolar.

No Ponto Para Ler o Mundo, a ideia era dar vida e potência ao vislumbre paulofreireano, trabalhando junto a turmas de crianças das escola públicas de ensino fundamental e de ensino médio com oficinas que juntavam jornalismo, teatro, fotografia e videografia, gerando vídeos-documentário.

Do jornalismo, vinha a ideia de proporcionar às crianças a exploração jornalística, escolhendo temas, descobrindo fontes de informação, realizando entrevistas, captando imagens e depois editando um material final. Transmitíamos às crianças como trabalhar com as perguntas básicas da informação jornalística: O que? Quem? Onde? Como? Porque?

Do teatro, vinham jogos de desinibição, socialização e expressão, que ajudavam as crianças a encarar seus papeis na exploração e transmissão que fariam no projeto, criando documentários para outras pessoas.

Do vídeo e da edição de vídeo vinha o trabalho com vistas à geração dos conteúdos. Note-se que no período os celulares – hoje verdadeiros aparelhos de conexão, captação e edição portáteis – ainda não estavam disponíveis com tais características, o que dava ao projeto um caráter bastante inusitado na geração da informação videográfica.

A equipe do projeto tinha seis integrantes. Eu fazia a coordenação técnico-pedagógica e trabalhava com jornalismo; Zé Luiz Martins também com jornalismo e edição de vídeo; Magali Flore com teatro e seu repertório de jogos criativos; Solange Rocha com artes plásticas e contação de histórias, Cinthia Lúcia com teatro e contação de histórias e Alex Sampaio com fotografia e vídeo.

Trabalhávamos por cerca de dois meses com cada turma. Para começar o trabalho com as turmas, optamos por atividades de concentração e criação do compromisso de grupo. Tinha em quase todo início de trabalho o jogo da bolinha: uma roda com todos em pé, onde cada pessoa podia jogar a bolinha de tênis para qualquer dos participantes, inclusive fingir que jogaria para um, jogando para outro. Tínhamos o objetivo de ir até 30, ou 50 jogadas sem que ela caísse no chão e, caso caísse, começávamos do zero. A concentração no compromisso comum era o que se jogava ali.

 Em seguida, vinham jogos teatrais muito divertidos, como ir caminhando no espaço de uma sala, circularmente, com um mestre do jogo pedindo a alguém que imitasse um cachorro, um passarinho, um inseto, ou uma máquina de lavar, o que sempre gerava risos, descontração, liberdade e coragem de expor-se.

Em fase seguinte, experimentávamos fotografar lugares da cidade. O projeto dispunha de várias máquinas simples, que fotografavam e filmavam, e as crianças saiam em grupo para fotografar, acompanhadas por nós. Os primeiros contatos com a atividade geravam muitas fotos delas mesmas e as lembrávamos que o objetivo era captar o ambiente para transmitir a outras pessoas. Um aprendizado que passava pelo desapego ao ego e por pensar nos outros.

Os temas, roteirização e realização das entrevistas pelas crianças vinham depois desses exercícios. Elas passaram por muitos assuntos, nas várias turmas: o comércio da cidade; o bulling nas escolas; o viveiro de plantas do município; a feira da cidade; as profissões; o fim do mundo em 2012, etc.

Me lembro de momentos curiosos, como as crianças perguntando ao policial se no exercício da profissão ele teve que atirar em alguém, obtendo dele uma resposta muito boa sobre como eram os compromissos éticos da sua função. Igualmente a entrevista com o responsável pelo viveiro de plantas, onde a entrevistadora extraiu informações de fazer inveja a qualquer bom jornalista. Depois de colhido o material, as crianças participavam da edição. Para isso havia uma sala instalada no piso superior da biblioteca municipal. Nessa sala, uma tela grande era afixada na parede, em frente à ilha de edição, e todos acompanhavam e opinavam no trabalho. Me lembro do último vídeo gerado, que foi para o ficcional, brincando com a história do fim do mundo que fez a mitologia de 2012. Os âncoras se despedindo do público na bancada foi hilário.

A história do Ponto Para Ler o Mundo para muitos talvez não pareça uma experiência de leitura. Mas era exatamente isso, no sentido da interpretação contextual. Se tratava de uma leitura ativa, critica e criativa. Uma leitura que pedia antenas ligadas e atitude na seleção de temas, cuidado no trato de informações e na geração dos vídeo-documentários.

A experiência do Ponto indica quanto pode ser proveitoso pensar e criar atividades de leitura diversas, assim como formar equipes profissionais multiplicadoras, reunindo habilidades arte-educativas próprias para elas. Mostra que as possibilidades pedagógicas nesse campo mal começaram a ser exploradas. E, sobretudo, que o dimensionamento para o “ler” deve ser atualizado. A criação de programas de incentivo às diversas formas de leitura é um desafio que pede curadorias, assim como transversalidade entre cultura e educação.