PARA PENSAR PROGRAMAS DE LEITURA

Gosto muito da ideia de programas de incentivo à leitura ou programas de leitura, que entendo como um conjunto composto por metas e recursos, fomentando projetos para tornar a literatura, a poesia e o texto acessíveis e a leitura engrandecedora e prazerosa. A geração desses programas demanda esforço de elaboração intelectual, – num sentido de pesquisa, curadoria e ações preparatórias, formativas de monitores -, que garantam sua inteligência e importância.

Quando imagino tais programas, quero que tornem o ato de ler o mais próximo possível de desdobrar-se em criação textual. E o contrário também: podem começar como criação textual e proporcionar o enriquecimento do repertório literário de quem vive a aventura.

– Penso em programas de leitura para crianças e adolescentes, acontecendo em parcerias com as escolas púbicas do ensino fundamental e médio, mas acrescentando à cultura escolar uma dimensão de conhecer, de pesquisar, de gostar, de fruir, de desafiar à criatividade;

– Penso em programas de leitura para trabalhadores, em parceria com empresas e sindicatos de trabalhadores, vislumbrando (porque não?) a capacitação profissional, da mesma forma que aguçando a criticidade e sendo prazerosos – o que penso seja o melhor modo de levar ao crescimento interpretativo e expressivo;

– Penso em programas de leitura para universitários, com sentido literário e humanístico. Seriam importantíssimos. As instituições de ensino superior, com certa arrogância, tratam-se como lugares onde já se adentra dominando a leitura. Um engano crasso, que as faz “formar” pessoas que saem delas lendo pouco e com repertório cultural e literário muito deficitário.

Tais programas exigem curadorias cuidadosas, porque é preciso escolher repertórios ricos e estimulantes, de autores clássicos e autores da atualidade, assim como definir metodologias de desenvolvimento e pedagogias adequadas a diferentes públicos e contextos socioculturais. Eles devem ser pensados arte-educativamente, na perspectiva de enriquecer o conhecimento, o senso estético, a comunicação e a expressão.

Os programas de leitura podem e devem ser desenvolvidos em perspectiva contemporânea, intersemiótica, ou seja, não restrita a leitura do verbal: favorecer a leitura de mundo e da cotidianidade; relacionar literatura e poesia com os quadrinhos, o cinema, vídeo, rádio, podcasts, cotidianidade gestual, publicidade, política, noticiários e programas de entretenimento, envolvendo toda a convergência midiática e hipermídia tornadas possíveis pelas novas tecnologias da informação e pela internet.

A elaboração deles deve trazer à baila várias perspectivas: a leitura crítica proposta pela teoria literária; a leitura estética; a leitura semiótica; a leitura dos Estudos Culturais e a leitura de mundo paulofreireana, que relaciona educativamente texto e contexto. Cito aqui algumas que pincei do campo literário e cultural.

O INCENTIVO À LEITURA COMO POLÍTICA CULTURAL

Defendo os programas vinculados a políticas e ações culturais, por um conjunto de motivos. O primeiro deles é transcender a cultura institucionalizada em torno da leitura, herdada do sistema educacional. Nesse sistema – Roland Barthes tratou muito bem disso em “Da Ciência à Literatura” (Rumor da Língua – Editora Brasiliense) – as instituições acabam por determinar os caminhos de saber, ao colocar moldes de objetivos e avaliação, divisão e classificação, que fazem pensar de maneiras muito determinadas e não proporcionam exercícios diversos de fruição e interpretação.

Atividades de leitura, vistas como atividades culturais lúdico-criativas ou fruitivo-criativas, devem ser pensadas, sobretudo, por pessoas que se dediquem a isso sem necessariamente funcionalizá-las a partir de determinações como ensinar conteúdos previstos nos currículos escolares e avaliar o aprendizado como um desempenho em relação a eles. Daí, penso que se tornem parte das políticas culturais, onde a vivência criativa é um valor fundamental.

Em seu último texto escrito, na verdade um esboço, “Observações sobre a epistemologia das ciências humanas”, o sociolinguísta Mikhail Baktin lembra algo essencial de se ter em mente ao pensar em estímulo á leitura: “o sentido não é solúvel no conceito”, ou seja, não se prende ao universo conceituado sobre a literatura e a leitura das obras. Com isso quer dizer, como também diz Barthes, que o leitor e a leitura não estão – e não precisam estar – presos ao que pretensamente teria querido dizer o autor-criador, nem às categorizações instituídas para a leitura.

Baktin recomenda considerar “a atividade dialógica do cognoscente” como elemento de conhecimento. Barthes pensa que o texto não seja apenas lugar de múltiplos sentidos, mas de travessia de sentidos, onde o leitor também o executa, como um músico executa de forma variada a música de que não é autor. A leitura, portanto, não é um simples consumo. É, em si, algo criativo.

Antônio Cândido via a literatura como uma comunicação inter-humana formada por três elementos: um conjunto de produtores literários, um mecanismo transmissor na forma de linguagem e estilo e um conjunto de diferentes tipos de público, “sem os quais a literatura não vive”.

A leitura – se vê pelas considerações desses autores – não é passiva. É ao mesmo tempo rica em perspectiva individual, coletiva e histórica. Lembro aqui, a esse propósito, que o campo dos Estudos Culturais, um dos que mais se destacam atualmente no cenário das ciências humanas, nasceu na segunda metade da década de 1950 inspirado pelas experiências de um grupo de estudiosos que se dedicou a educação de adultos na Inglaterra, tendo como base a leitura e a literatura.

Da relação desse processo formativo de pessoas com a literatura e a leitura germinaram os questionamentos históricos, estéticos e conceituais que terminaram levando a toda uma revisão do modo anterior de ver a cultura. Foram intelectuais que o fizeram mais por desejo e vocação do que por necessidade profissional, num esforço democratizante da cultura, situação em que puderam, com liberdade, reorganizar os modos e situações de leitura a serem propostos.

Há outro ponto que gostaria de mencionar para defender programas de leitura como parte articulada de políticas culturais públicas: a possibilidade de que aconteçam e transitem em espaços sociais diversos. Citei, no início do artigo, escolas do ensino fundamental e do ensino médio para a leitura junto às crianças; o espaço universitário para como convidativo para um programa de leitura humanística e o espaço adulto, em termos de qualificar para a atuação profissional (não confundir com “para o mercado”). Há outros muitos que são possíveis e chamam interessantes temáticas: assentamentos, coletivos feministas, pessoas interessadas na literatura afro-originada, grupos interessados em arte-educação a partir da poesia e da literatura, etc., etc.

E, finalizando, um terceiro elemento importante que chama para o campo cultural a organização de tais programas: a mobilização de linguagens artísticas diversas nesse processo, como o teatro, o cinema e o vídeo, a música e as canções, a dança, o rap e outras. Cada uma das linguagens tem história de interação literária e pode oferecer exercícios, jogos e trajetos de leitura. Além disso, demandam literatura para seu próprio desenvolvimento.

Uma mobilização profícua dessa relação inter linguagens é possível e o enriquecimento que desencadeia não pode ser devidamente medido se não for vivido com a preocupação de captá-lo. Na sequência desse artigo, pretendo exemplificar com algumas experiências que vivenciei e acompanhei.