DEZ PONTOS PARA A GESTÃO CULTURAL NAS CIDADES

Por doze anos atuei em gestões culturais municipais. Primeiro em Londrina, uma referência em produção e gestão cultural. De 2001 a 2008 vivi a implantação de uma incubadora de projetos culturais, a formulação e implantação do Programa Municipal de Incentivo à Cultura – PROMIC e a coordenação do programa Rede Cidadania, que reunia projetos de oficinas de criação artística. Em 2007, fomos finalistas do Prêmio Cultura Viva, do Ministério da Cultura, pela Rede Cidadania como experiência de gestão pública envolvendo educação, cultura e comunidades.

Em seguida, convidado para atuar na gestão cultural em Ourinhos, no interior paulista, participei da criação do programa VivOurinhos de gestão, que articulava numa rica circulação festivais de música, literatura, teatro, dança e muitos processos de iniciação artística. Investimos no fomento a projetos e a cidade viu sua agenda cultural enriquecer-se.

Desde 2012 faço consultoria sobre gestão cultural, contribuindo com o assunto em vários municípios e regiões. Das experiências, estudos e discussões acumuladas, relacionei estes 10 pontos que se seguem e considero importantes para uma gestão pública da cultura em benefício das cidades e suas populações.

Evidentemente, na vida real de cada uma, problemas variam e mesmo se acumulam: desinteresse dos governantes e até aversão à cultura; falta de experiência de gestão; deterioração dos aparelhos e espaços culturais públicos; falta de pessoal. Não tenho pretensão de solucioná-los ou de sensibilizar dirigentes políticos nesse artigo. Os pontos que relacionei têm um viés principal: ofertar uma modelagem de gestão que mobiliza os potenciais da criação e da produção cultural e os coloca em ação no ambiente das cidades.

São considerações simples, até de algum modo óbvias. Mas, reunidos, esses pontos dão uma dimensão de gestão e espero que contribuam.

CIRCULAÇÃO CULTURAL ACESSÍVEL, EM LUGARES DE REFERÊNCIA

Corresponde a organizar uma programação de ações culturais para circular em lugares que sejam ou se tornem referência, no centro e nas periferias, com agenda bem divulgada. Os pontos de circulação cultural devem ter assegurada programação diversa e continuada, ganhando e agregando públicos, com a população incorporando-os em suas opções de lazer e entretenimento.

OFERTAR OFICINAS DE CRIAÇÃO CULTURAL

As oficinas de criação artística tornam possível às pessoas lidar com a diversidade expressiva da arte, de modo a conhecer os repertórios, os modos e técnicas de fazer e as angulações possíveis de leitura, conhecimento e sensibilidade para a vida que advém da arte e da consciência da cultura. A presença das oficinas nos bairros e nas escolas significam que os canais estarão abertos para que despontem artistas, não sendo mais seletivos a partir da renda financeira das pessoas ou dificuldades de acesso às referências estéticas.

FOMENTAR PROJETOS DOS CRIADORES CULTURAIS

Fomentar projetos culturais selecionando-os por meio de editais públicos significa o poder público reconhecer que a cultura é criação da vida social, onde são protagonistas os artistas, produtores culturais e comunidades. É principalmente através desses atuadores sociais e de seus projetos que se provê a cidade de um circuito cultural acessível e de oficinas criativas que realizam a política pública de cultura. Se o poder público apenas contratar atividades culturais, como serviços pontuais, perde-se a potência do processo artístico que está nos projetos: a ativação do desejo de criar, do trabalho criativo e a vontade de compartilhamento da criação. Entendo que inclusive os grandes programas de ação cultural devem se realizar mediante projetos que se somem em redes culturais para os objetivos estabelecidos.

PROMOVER A INCUBAÇÃO DE PROJETOS

Incubação é a orientação ao planejamento e elaboração de projetos. Ao oferecer esse serviço, o poder público de fato abre aos produtores culturais e comunidades a participação no fomento e na política pública de cultura, transpondo a elitização (é preciso mais que discurso para superar o elitismo). Assim, qualifica a apresentação de projetos, tem a oportunidade de dialogar sobre as prioridades culturais na cidade e estimula os projetos a proporem soluções criativas para viabilizá-las.

ARTICULAR REDES DE AÇÃO CULTURAL

A gestão cultural no âmbito das cidades torna possível fomentar projetos e ao mesmo tempo articulá-los em ações culturais em rede, num tecido cooperativo formado pelos projetos e pelo gestor público, onde as identidades se somam em ações pactuadas. As capacidades, conhecimentos e dificuldades são compartilhadas e se movimentam com objetivos comuns, em programas e ações conjuntas. São exemplos redes entre os festivais, programas de incentivo à leitura, programas de preservação da memória, redes de oficinas criativas, programas de formação de agentes culturais, desenvolvimento de circuitos culturais escolares, etc.

EXPLORAR POTENCIAIS PEDAGÓGICOS E ARTE-EDUCATIVOS

Entre os possíveis programas culturais, um dos mais importantes é desenvolver oficinas culturais nas escolas, tornando-as espaços de vivência da arte. Daí saem construções pedagógicas preciosas. Defino por “Pedagogias da Cultura” ou “Pedagogias Arte-educativas” aquelas que se baseiam nos potenciais expressivos das linguagens artísticas, nas pesquisas criativas que comportam, nos jogos artísticos diversos e brincadeiras acumulados na tradição popular, aliadas a conceitos de educação onde o aluno tem papel ativo. Construir processos educativos a partir das Pedagogias da Cultura significa juntar os educadores que acreditam na relação de ensino como uma relação criativa e os artistas e agentes culturais que acreditam nas linguagens da arte como algo possível de ser partilhado. E em colocar em contato produtivo o ambiente das escolas e a criação cultural. Isso pode e deve ser transformado em programa transversal de governo.

ESTRUTURAR O DESENVOLVIMENTO DOS SEGMENTOS CULTURAIS

A garantia da diversidade artística depende de que a criação e circulação em linguagens diversas seja possível, o que implica desenvolver os vários segmentos culturais. Esta ação depende de um bom debate entre os artistas e a gestão pública, delineando ações e projetos estruturantes, que atendam necessidades como o intercâmbio, as condições de produção, os espaços físicos disponíveis, a possibilidade de realizar projetos, etc. O que é viável, em que tempo? O que vem primeiro? São decisões a partilhar.

VIVIFICAR OS ESPAÇOS CULTURAIS PÚBLICOS

Tornar abertos, interessantes e acessíveis bibliotecas, teatros, museus, escolas, etc. Desenvolver neles programações didáticas, de acordo com suas vocações. Organizar pontes entre as escolas públicas e os espaços culturais, para o trânsito de novos públicos e formação de públicco.

COMUNICAÇÃO DO PROCESSO CULTURAL

As facilidades da comunicação na cibercultura não deixam lugar para desculpas: é totalmente factível a difusão ampla da agenda cultural, das ações, programas e projetos culturais. Blogs, correio eletrônico e redes sociais permitem ofertar para a população uma visão de conjunto das ações culturais, e de profundidade sobre seus vários processos específicos. Há dois tipos de ação necessárias para ampliar a comunicabilidade: a primeira é que a capacidade de comunicação dos projetos seja trabalhada como parte da formação cultural necessária. A segunda é que nas grandes cidades se abram programas para receber projetos comunicativos destinados a divulgar a agenda cultural. Projetos que prevejam equipes profissionais e tenham políticas editoriais pautadas pela visão da diversidade cultural.

GESTÃO DEMOCRÁTICA E COMPARTILHADA

O que entendo por gestão democrática não se esgota em implantar e consultar um Conselho de Cultura. Inclui a incubação de projetos e o debate das prioridades para sua seleção como interlocução molecular geradora das ações culturais; envolve fóruns para trocas de referências entre os projetos de oficinas criativas ou que tenham outras identidades; envolve conferências de cultura deliberativas para decidir as prioridades maiores e, sim, ter conselhos que sejam ouvidos e acatados. Esse conjunto faz uma gestão compartilhada. Sendo a cultura bem comum – e não sendo propriedade privada ou estatal – essa é a dimensão de gestão que lhe faz justiça.