SEM OFICINAS DE CRIAÇÃO NÃO TEM POLÍTICA PÚBLICA DE CULTURA

Não se pode falar com orgulho legítimo que exista uma política pública de cultura numa gestão – municipal, estadual ou nacional – sem que nela exista fomento a oficinas de criação, capaz de estender à população o contato protagonista com a diversidade das linguagens artísticas e da cultura. Há várias angulações em favor desse argumento e desenvolvo aqui os que considero determinantes.

A primeira é o entendimento sobre cultura. Prefiro usar a palavra “entendimento” no lugar de “conceituação”, porque vejo que há definições conceituais, mesmo corretas, que por generalidade acabam dificultando o trato dos problemas a enfrentar em torno do assunto. “A cultura é o conjunto de valores e bens simbólicos de uma sociedade” é um exemplo dessas conceituações a que me refiro.

Raymond Williams, um dos fundadores dos Estudos Culturais, dizia, “a cultura é de todos, devemos começar por aí”, marcando o que era ao mesmo tempo seu entender e sua posição. Para ele, a compreensão sobre cultura deveria abranger ao mesmo tempo os modos de vida e significados comuns e os processos de descoberta e esforço criativo, envolvendo as artes e o aprendizado.

Visões que querem eleger letrados esnobes como cultos e demais pessoas como destituídas de cultura, embora persistam, são para o pensador inglês minudências da vida elitista, que terminam por construir muros em torno do jardim dos bens culturais, evitando que façam parte do jardim as pessoas comuns, o trabalho e a vida em comum. Como contraponto, ele propõe que

“todos os canais de expressão e de comunicação deveriam estar abertos e acessíveis, de forma que toda a vida real… possa estar disponível para a consciência e para a significação.”

O pensador dos Estudos Culturais considera o processo educacional determinante canal de expressão e comunicação a ser democraticamente disponibilizado, e para isso entende que se deve superar a divisão social de papéis entre os que transmitem e os que recebem, de modo que exista a contribuição de todos na elaboração de significados e valores.

Tornar comum e possível lidar com a diversidade expressiva das linguagens artísticas significa estender essa possibilidade às pessoas como uma atitude educadora, não esperando que todas venham a revelar talentos especiais e artísticos, mas para que possam conhecer os repertórios, os modos e técnicas de fazer e as angulações possíveis de leitura, conhecimento e sensibilidade para a vida que advém da arte e da consciência da cultura. Além do que, isso significa que os canais para que despontem artistas estarão abertos e não serão seletivos a partir da renda financeira e da ausência de acesso e de referências.

LABORATÓRIOS CRIATIVOS

O uso do termo “oficina” no meio cultural é amplo, mas a reflexão sobre ele é tímida. O que entender por Oficinas de Criação? Gosto de decupar os dois termos para melhor compreender a junção deles.

Penso o termo, “oficina”, aproveitando a definição do sociólogo do trabalho Richard Sennett, que a vê como espaço-laboratório de artífices-criadores. As oficinas, para Sennett, são lugar de uma artesania que combina o cérebro e as mãos, numa alusão ao fazer pensado.

Gosto também da ideia do teatrólogo Bertolt Brecht, que a propunha como um laboratório, lugar de aprendizagem e de experimento de exercícios artísticos coletivos. Brecht concluiu que os efeitos estéticos são melhor compreendidos observando-se as pessoas quando estão dando formas para o narrar, atuar, cantar, dançar… Ele fala não só dos artistas já tidos como tal, mas dos que estão amadoramente em contato com o ato artístico, optando, fazendo escolhas, selecionando materiais, assuntos, focos. Isso é o ambiente da oficina.

O segundo termo “criação” eu o tenho como um complemento necessário, justamente porque o contato com o ato artístico significa, no entendimento de oficina esboçado acima, aprender criando a partir da cultura e das linguagens artísticas. Nelas os participantes leem o mundo e somam suas imaginações em desejos e objetivos de criação. Propõem e realizam pesquisa de textos literários, histórias, notícias, acontecimentos cotidianos ou extraordinários, gestos, atitudes, novelas, filmes, cenas, temas, passeios, etc. A leitura é integrante do ato criativo. Tudo funciona como escola de referências estéticas: os aprendizes conhecem as trajetórias e possibilidades das linguagens da arte. E lidam com elas como artistas, ou como pesquisadores, para usar um outro termo que aqui também cabe.

LEITURA ESTÉTICA

Insisto um tanto no papel da leitura no que diz respeito às oficinas de criação, porque elas redimensionam e atualizam a noção de leitura. Revolucionam o que é objeto de leitura, para além da literatura e do texto. A leitura deixa de ser linguística e passa a ser semiótica. Como lembrou Roland Barthes, tudo se dá a ler, os textos, as figuras, os rostos, as cidades, as pessoas, os gestos delas, seus deslocamentos, etc. O que faz convergir uma leitura é por vezes a pura e simples presença e encontro, mas em outros casos mais elaborados, como o das oficinas, entram em cena o desejo, a intenção e a perspectiva criadora.

Nesse caso, temos na leitura o que Barthes considerou não mais imagens interiores, projeções e fantasias de um “eu” divagante, mas trabalho:

“o produto (consumido) é devolvido em produção, em promessa, em desejo de produção, e a cadeia dos desejos começa a desenrolar-se, cada leitura valendo pela escritura que ela gera”.

Barthes usou o termo gerar “escritura”, obviamente, para além do texto, como refletindo essa produtividade instigada.

Walter Benjamin também refletiu sobre as oficinas como território entrelaçado de aprendizagem estética e criação. Num texto de 1928, (“Programa de um teatro infantil proletário”) se preocupava com dois polos do desafio da educação infantil: o de abranger toda a vida como campo de curiosidades e o outro, de delimitar certos terrenos de interesse. Benjamin viu o teatro como possibilidade ímpar nessa arte de ter como possível a totalidade da vida e emoldurar as escolhas em relação a ela. Ele via essa tensão, num trabalho coletivo, como verdadeiramente educadora das crianças por juntar a inervação receptiva e a inervação criadora delas. Concluiu caber às oficinas “o desenvolvimento desse gesto infantil até as diferentes formas de expressão”.

PEDAGOGIAS DA CULTURA

Ao leitor desse texto, sugiro que imagine quantas possibilidades adviriam da música, do teatro, da dança, da poesia, das artes plásticas, do cinema e do vídeo, do hip hop, da capoeira, enfim, todo potencial sensibilizador, expressivo e educativo das linguagens artísticas, das pesquisas criativas que comportam, dos jogos artísticos diversos e brincadeiras acumulados na tradição popular, aliadas a conceitos de educação onde o aluno tem papel ativo.

Eu chamo tais possibilidades de “Pedagogias da Cultura” ou “Pedagogias Arte-educativas”. Entendo que um dos fundamentos dessa pedagogia é que arte e criatividade não são “dons” de artistas, como se eles fossem proprietários natos do talento. Educadores como Paulo Freire, Celestin Freinet, Gianni Rodari, Lev Vigotiski, Jhon Dewey (entre outros), dizem ser preciso reconhecer nas pessoas a imaginação e a criatividade: no mais comum dos homens, no cientista e no artista… A imaginação e a criatividade precisam de materiais, de estímulos, de espaços, de tecnicas e de tecnologias pedagógicas. E precisam da realidade, dos contextos e das problemáticas envolvidas no que Paulo Freire chama de leitura de mundo, que todos nós humanos fazemos desde o mais tenro contato cultural.

Entendo, por razões que não serão aprofundadas nesse texto, que essa iniciativa cabe à cultura como área de gestão, e não a educação, apesar da evidente relação educativa e pedagógica das oficinas. Relaciono algumas delas: as oficinas devem estar ancoradas nas possibilidades e na liberdade da cultura e da arte, não nas amarras e no papel passivo que a cultura escolar reserva aos estudantes. Elas devem abranger as crianças, mas também adultos, e podem acontecer em escolas, mas não só. Devem acontecer onde sejam desejadas em toda sua potência. O que defendo é que as oficinas de criação são mananciais. Abrir mão delas significa ignorar um tesouro para a expressão e a qualidade de vida e impedir que a cultura seja mesmo acessível e comum. Qualquer gestão da cultura no interesse público deve assumir as oficinas de iniciação e criação para tornar bem comum as linguagens da arte. Isso determina se uma política cultural é de fato pública ou se o é pela metade, apenas contribuindo para que produzam e circulem artistas e grupos artísticos que já existem como tal.