Esse Blog e seus assuntos

O blog Luminares é voltado a ler e pensar o mundo em perspectiva cultural. Cultura nos modos de vida e na política; cultura e comunicação; cultura e qualidade de vida nas cidades; modelagens de gestão cultural e, por fim, as relações entre cultura e educação, especialmente abordando práticas arte-educativas para uma educação crítica.

As matérias, aqui, vão ser um misto de ensaio, crônica e jornalismo. Haverá a liberdade e a transparência das escolhas de angulação próprias do ensaio, ao lado do compromisso do jornalismo em localizar os acontecimentos e os assuntos em termos de temporalidade, personagens e interesses envolvidos.

No jornalismo corrente, há ausências lamentáveis, decorrentes da falta de olhar para a cotidianidade em termos de viver cultural: como as pessoas comuns se divertem, como vivem a cidade, como comem, como veem seu trabalho, como processam informações sobre política, direitos, economia, novelas, futebol, comportamentos, etc.

Outra ausência jornalística são matérias que revelem os modos de fazer transformadores da arte, quando em ação em projetos de oficinas e atividades criativas nas comunidades. O público acaba desconhecendo esses potenciais e seus benefícios, um das razões pelas quais as políticas culturais são pouco valorizadas e reivindicadas. No Luminares, tanto vamos apontar as ausências como buscar supri-las, em dose modesta, mas importante.

Assuntos como a cotidianidade, relações de trabalho e ambiente urbano serão abordados como nucleares da cultura. A arte e a educação tendo as pessoas, suas vidas e suas possibilidades como centrais. Nos interessam as experiências criativas e de educação a partir das linguagens da arte, as experiências de solidariedade e comunidade e as histórias iluminadoras.

O blog pretende tocar e ler a cotidianidade, dando sentido histórico aos rumos a se propor agora para a cultura, a educação e as práticas comunicativas. Atuar, em termos jornalístico e intelectual, para que a cultura, a educação, a comunicação e a cidadania possam ser experiência social efetiva.

O sentido de luminar

O nome “Luminares” é inspirado numa definição dada pelo sociolinguísta russo Mikhail Bakhtin (1895 – 1975), um dos pensadores que mais influenciam as ciências humanas nos dias atuais. Ele definiu “luminares” como ideias que iluminam e movem sua época.

No pensamento de Bakhtin, o sentido cultural da vida não é uma elaboração acadêmica, conceitual, mas uma questão cognitiva, socialmente falando. Ou seja, questão de percepção, aquisição de conhecimentos e compreensão das coisas em adjunção, associação de uns com os outros numa elaboração criadora. No Luminares tomamos essa noção ativa para a cultura. Não só observá-la e avaliá-la, mas explorar suas potências, par-e-passo com as pessoas.

Penso que a cultura oferece dois caminhos como luminar:

Um deles é a consciência cultural, de que todos vivemos a cultura. Ela não é da elite. O elitismo é culturalmente seletivo, porque pretende que existam os “cultos” e os “desprovidos de cultura” e gaba-se de viver no polo privilegiado dos que “possuem” cultura.

A cultura também não é de massa. A massificação é a formula aplicada para uma produção industrial da cultura, que propõe a vivência dela no consumo. Mas a cultura é relacional, é um tecido comum aos modos de vida e deve reconhecer em todos os fazeres criativos e o interesse pelo conhecimento.

O caminho da consciência cultural é o de reconhecer a diversidade cultural nos modos de vida, inclusive o lado deplorável de certas manifestações, como os preconceitos, as exclusões, as limitações impostas à cidadania, a democracia e aos direitos humanos. É quando se localizam esses males como históricos e culturais que se alcança sua superação. Do contrário, são naturalizados.

O outro caminho da cultura como luminar é seu potencial para a qualidade de vida nas cidades. A cultura ativa a economia criativa, pelo cinema, pelo artesanato, pelos festivais, pela gastronomia, etc. Uma infinidade de possibilidades, que permitem desenhar perspectivas e gerar renda.

A presença da cultura e dos projetos arte-educativos são uma grande alternativa como política de segurança pública. Oferecem perspectivas nas comunidades, envolvendo crianças e jovens, pelo desejo, em atividades criativas e conviventes, que as livram das mãos do crime organizado.

Os espaços urbanos públicos (como ruas, praças, parques) e espaços culturais (como bibliotecas, teatros, museus) todos podem se tornar dinâmicos e efetivamente comuns, a partir da presença da cultura e das artes.

O ambiente educacional, hoje vítima da intolerância à diversidade e ameaçado de militarização, pode ser vivificado e dinamizado pelas pedagogias arte-educativas. Assim também as políticas de saúde pública e de assistência social encontram nos projetos culturais caminhos renovadores.

Por toda essa potência, a cultura é luminar do contemporâneo. Mas isso precisa ser mostrado. Como disse Brecht, afirma-se a verdade que afirmamos. Afirmar o luminar da cultura é o projeto do blog.