Consciência Cultural para clarificar

Aqui no blog onde cultura é centro temático, falar do entendimento de cultura e de sua importância é obrigatório e problemático, já que o assunto é toda uma constelação. Por isso começar a falar se tornou um bom problema. Escolhi lançar mão de Bertolt Brecht para localizar a visão de consciência cultural que vai estar aqui.

Em 23 de julho de 1938, o teatrólogo estava envolvido na criação da peça “Os negócios do Senhor Júlio Cesar”, e anotou no Diário de Trabalho as preocupações que a criação trazia:

Escrevendo Cesar começo a entender que não devo acreditar por um momento que as coisas tinham que acontecer como aconteceram. Que, digamos, a escravidão, que tornava a política uma impossibilidade para a plebe, não podia ser abolida. Procurar razões para tudo que aconteceu torna fatalistas os historiadores.”

Na pequena passagem estão coisas essenciais sobre cultura

Da antropologia que irrompeu do final do Século XIX e adentrou o Século XX aprendemos a reconhecer diferenças culturais a partir de sociedades diferentes, rompendo com a visão que via as potencias colonizadoras como cultas e os colonizados como atrasados. Dos Estudos Culturais que ganharam corpo a partir da segunda metade do Século XX, aprendemos que somos formados e nos criamos nos embates e convivências culturais – e que a cultura está nos modos de vida e nos conhecimentos criativos. E de Brecht podemos compreender que a dimensão da cultura está em toda angulação sobre os conflitos passados e presentes. É necessário investigar tais angulações sem medo, com critério e com as perguntas certas.

Quando o incomoda o tratamento que os historiadores davam à escravidão no período do império romano, como um mecanismo de conformismo do pensamento, Brecht se incomodava com uma cultura e uma leitura que ainda estavam presentes na atualidade dele. E levantou questões demolidoras:

Todo esse papo de que os escravos eram necessários porque não havia máquinas é totalmente superficial e inepto! Afinal outra razão para não terem máquinas era terem escravos. E quem são ‘eles’? Será que os escravos precisavam da escravidão porque não tinham máquinas? Constituíam dois terços da população da Itália. Tenho que mostrar como toda sociedade afunda na escravidão na tentativa de manter a escravidão funcionando.

O que Brecht aponta são os sedimentos de conformação que sustentam a cultura no presente. Se dizemos, por exemplo, que paulistas ou nordestinos não sabem votar, são culturas políticas que estamos alimentando. Se achamos que a escola deve apenas ensinar e aos pais cabe educar, é uma cultura educacional que estamos propagando. Se entendemos democracia apenas como direito de voto, é a um determinado cultivo de democracia que nos limitamos.

Como diz Raymond Williams, fundador dos Estudos Culturais, “experiência inclui pensamento” e nossas formulações são alinhamentos. É enganoso imaginar que “comunicamos” a realidade, como se a possuíssemos, por um lado, e por outro como se nossa comunicação fosse algo que vem depois de a interpretarmos. Os modos como vemos e os modos como angulamos estão imbricados na cultura e na linguagem. Os que querem omitir o que de cultura forma suas posições, normalmente querem “naturalizar” pontos de vista como os únicos aceitáveis. O que termina em imediatismos, preconceito, autoritarismo…

A cultura é múltipla, multidimensional. Nela também está a dominação. Mas a consciência cultural não é obscurantista. Ao contrário, ela vem a nós no momento em que percebemos as tentativas de transmutar o que é histórico numa espécie de condição natural, petrificada. Quando digo que aqui no blog a cultura vai ser focada como luminar do contemporâneo, quero me referir ao esforço de clarificar. A crítica cultural nesse caminho é o projeto editorial do Luminares.